sábado, 31 de janeiro de 2026

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos praticar tais atos, seguindo os nossos ensinamentos cristãos, todavia, como não sou nem desejo ser, perfeito, sabia que, enquanto não fizesse algo a respeito não teria paz e sossego. 

Precisava resolver este assunto para continuar minha vida pecadora. 

Conhecia X. de longa data; era uma pessoa muito afável, que gostava de companhia e sempre era visto nas festas e eventos que aconteciam em nossa cidade. Também praticava a filantropia, ainda mais quando poderia tirar algum proveito ou vantagem. 

Um homem alegre, casado e com filhos. Alguém que você gostaria de conhecer, mas pensaria duas vezes antes de conviver. 

Ele tinha muitos gostos semelhantes aos meus e poderíamos conversar durante horas sobre tais temas. Mas, se você queria realmente deixá-lo interessado num diálogo, era envolvê-lo numa conversa sobre automóveis. Esta, sem dúvida alguma, era a sua paixão. 

Ele poderia ficar sem se alimentar, sem se vestir, mas ficar sem carro era algo impensável. Sabia como poucos citar os termos técnicos de cada veículo, avaliar o desempenho de cada modelo, os prós e contra de cada marca. Era até educativo vê-lo dizendo que já tivera mais de uma dezena de carros ao longo de sua vida e que jamais perdera dinheiro na compra e venda. 

Certa vez, escutando as suas explanações, foi que entendi que o meu desejo de vingança seria plenamente satisfeito usando a sua paixão pelos carros. Seria um plano perfeito, bem executado e que não deixaria rastros. 

Nos próximos meses, arquitetei tudo com zelo e precaução; tudo tinha que estar bem concatenado para que o projeto fluísse perfeitamente. Dediquei-me com afinco em cada detalhe, em cada nuance. 

Numa tarde, encontrei-o num bar, onde costumava ficar; para minha sorte, ele estava sozinho. Comecei a entabular uma conversa amistosa sobre assuntos amenos. No final, já me despedindo, citei que havia comprado um carro, mas não tinha certeza de que havia feito um bom negócio. 

Jamais me esquecerei dos olhos dele: ficaram faiscando de curiosidade. Meu plano estava começando a dar certo. 

Já me levantando, disse que não precisaria se preocupar, que estava em seu período de descanso, que deveria ir para sua casa e ficar com sua família. Nada disso o fez demover da ideia: levantou-se, deixou o dinheiro de sua conta na mesa e, segurando o meu braço, me fez levá-lo até onde estava o carro. 

Tentei fazê-lo desistir, mas debalde. Ele queria ver o veículo de toda maneira. 

Dias antes, havia ido a uma concessionária e consegui um carro para uma avaliação. Como tinha bons antecedentes e era conhecido, o dono fez questão que levasse o veículo e que fizesse uma avaliação de alguns dias, um tipo de test-drive mais prolongado. Assinei um termo de responsabilidade e saí dirigindo, sem despertar suspeita alguma de meu real propósito. 

O veículo era um modelo usado de uma marca famosa; contava apenas dois anos de uso e estava em ótimas condições de conservação. 

Quando apresentei o carro a X., ele começou a me bombardear com termos técnicos, mas disse para darmos uma volta. Dirigimo-nos para um lugar ermo, um mirante, perto de um penhasco no mar. Para minha sorte, não havia ninguém por ali; tudo poderia correr conforme o planejado. 

Chegamos ao local, descemos do carro e começamos a ver o motor e outros componentes. Ele sempre muito entusiasmado, repleto de atenção e interesse. 

O local tinha um aclive que levava diretamente para o precipício. O carro estava a cerca de vinte metros do abismo, logicamente, com os freios acionados. Ele nem suspeitava do desfecho de tudo e continuava olhando cada detalhe do bólido. 

Disse-lhe para entrar no veículo e me dizer o que achava do banco do motorista, se era confortável ou precisaria trocar. Ele, sem nada perceber, o fez. 

Nisto, bem rapidamente, acionei a chave eletrônica do carro, travando as portas, destravando o freio de serviço, colocando o veículo em movimento, descendo o aclive onde estava parado. 

Ele, totalmente atônito, não teve tempo para tomar qualquer atitude; o carro ganhou velocidade e caiu no penhasco, sendo engolido pelo oceano em questão de segundos. 

Para me desvencilhar de qualquer vínculo com o ocorrido, atirei a chave eletrônica no mar. No dia seguinte, fui à concessionária comunicar que o carro havia sido roubado; antes havia informado às autoridades policiais sobre o fato. 

O gerente ficou um pouco nervoso, mas disse-me para ir embora, pois a seguradora cobriria tudo. 

A família de X. o procurou por algum tempo, mas sem sucesso. Logo se descobriu que ele mantinha uma amante de longa data, o que fez com que sua esposa desistisse de encontrá-lo. O caso foi arquivado pela polícia, meses depois. No consenso de todos, X. havia fugido com sua amante e jamais voltaria. 

Quanto a mim, jamais fui procurado para prestar esclarecimentos, mas lamentei a perda de tão estimada pessoa, fazendo um brinde em sua memória, no bar onde costumávamos ir. 

Somente no século XXIII, foi que alguns mergulhadores encontraram, no fundo do mar, um veículo do século XXI com um esqueleto dentro. 


Requiescat in pace!


2020

PLANÍCIE

Sim, finalmente, depois de anos, ela conseguia se casar com aquele homem que tanto amava; uma década de um namoro, de altos e baixos, um noivado de idas e vindas, mas no final ela poderia chamar o seu amado de marido. Um momento que tanto esperava! 

Tudo estava bem: a mãe do amado gostava muito dela, ela tinha um emprego muito bom, estava no melhor momento de sua carreira, tinha saúde e uma beleza de causar inveja. Poderia dizer, sem susto, que estava no seu auge, no seu apogeu. 

O marido, um homem um tanto conservador, tinha um emprego de menor destaque que ela, mas fazia questão de atender todos os seus desejos de sua amada: uma roupa bonita, ir a um restaurante caro, mobiliar a casa como ela queria. Um verdadeiro conto de fadas começava para ela que não se cabia de satisfação e alegria. 

O tempo passou: os meses, logo viraram anos. O amado agora parecia mais preocupado com o trabalho do que com ela. Seu zelo para com suas atribuições lhe despertava um misto de admiração e raiva. Passou a se sentir em segundo plano na vida do marido. 

No seu emprego, ela via as amigas viajando com seus namorados e maridos para o exterior ou um destino mais modesto e sentia uma falta de interesse de seu companheiro. Ela que sempre gostava tanto de conhecer outros lugares e tinha feito planos na juventude, se sentia com uma pontinha de frustração, mas nada comentava com ele. 

Depois do trabalho, ia conversar com sua mãe; uma senhora de cabelos embranquecidos e calejada pelas agruras que sofrera durante sua vida. E a conversa era a mesma: isto é coisa do casamento, que se acostumasse. As palavras maternas, longe de lhe trazerem conforto, segurança e serenidade, acabavam, com o passar do tempo, a lhe despertar um agudo desespero. 

Em algum tempo, o marido começou a chegar tarde em casa. Se eximia de desculpas e só queria tomar o seu banho, comer alguma coisa, assistir TV e dormir. No início, ela até aceitou, mas logo exigiu satisfação. 

A resposta foi truculenta: em um dia, depois de uma discussão mais exaltada, o homem lhe deu um soco no rosto. Depois disso, passaram a dormir em quartos separados, onde ela sempre molhava o seu travesseiro com suas lágrimas. 

Ao tentar desabafar com sua mãe, ouviu o que menos esperava: a culpa era dela que não entendia as necessidades dele. Reiterava as palavras já ditas: se acostumasse e deveria agradecer, todos os dias, por ter um marido tão zeloso. 

Para completar, sua sogra passou a lhe tratar com indiferença; no fundo nunca consentiu com aquele casamento, pois achava que seu filho merecia outra mulher. Agora, como que justificada por alguma causa desconhecida, passou a exigir que lhe ajudasse de sua casa. 

Assim, ela passou a cumprir uma rotina tríplice: trabalhar em seu emprego, limpar sua casa e a casa da mãe do amado (sogra). Uma extenuante jornada. 

Num belo dia, resolveu que daria termo àquilo: um divórcio, uma nova vida, uma nova chance de ser feliz. Todo o que ela queria ardentemente. 

Nisto, algo interessante aconteceu: todos ao seu redor se reuniram para demovê-la daquela ideia: afirmavam que formavam um belo casal, que seria loucura deixar aquela vida tão boa. 

E como se uma tempestade cessasse, ela se viu forçada a aceitar; o marido prometeu que a trataria bem, nunca mais a machucaria e passaram a ir a uma reunião de casais numa denominação evangélica; a sogra passou a contar com os serviços de uma empregada e a dizer para todos que sua nora era preguiçosa (seu filho se casara mal, pois nem netos ela lhe deu) e sua mãe agradeceu a Deus pelo casamento da filha ter continuado. 

E assim, como olhando para uma imensa planície que se descortinava à sua frente, ela pareceu se sentir conformada. Sua vida não teria a coloração favorita, mas teria alguma cor; não teria os seus sonhos realizados, mas pelo menos dormiria bem à noite; o marido não seria o galã romântico da novela, mas também não seria o vilão de bigodes finos. 

Consagrava o resto de seus dias a uma doirada e tola mediocridade. 

 

MMXX

O AMOR DEVE CONTINUAR

Formavam um belo casal. Todos diziam isso. Nos acontecimentos sociais, sempre eram invejados, pois brilhavam mais do que todos. Eram de uma cumplicidade sem igual, um amor que parecia ser daqueles de romance. 

Se conheciam desde criança; estudaram na mesma escola; começaram a namorar ainda adolescentes e quando anunciaram o casamento não foi surpresa para seus pais. Era uma inevitável e bem vinda consequência. 

Também eram profissionais respeitáveis em suas atividades. Tinham uma bela casa, uma boa reserva financeira e estavam pretendendo ter filhos. Uma vida perfeita e maravilhosa. 

Contudo neste mundo de felicidade, havia algo que incomodava os dois: como seria estar com outra pessoa? Se relacionar, conviver, ter uma vida de casal diferente daquela? 

Esse pensamento surgiu na mente dos dois de forma simultânea. Logicamente, que não iriam comentar isso numa conversa, pois tinham medo da reação do outro. Era um assunto proibido que não poderia ser mencionado. O que ele pensaria dela? O que ela pensaria dele? E também, com o passar do tempo, tal sentimento seria esquecido. 

Os anos se passaram. 

A vida deles continuava boa: no trabalho, em casa, tudo ia bem. Mas sentiam que faltava algo. O sentimento que julgavam estar morto, estava latente, exigindo uma reação. E os dois, como se nada estivesse acontecendo, tentavam seguir suas vidas. 

Mas, a vontade, o desejo era demais. E ele, depois do serviço, conseguiu levar uma colega de trabalho para o motel. E ela, depois de seu expediente, conseguiu que um colega de trabalho a levasse para o motel. No mesmo lugar, na mesma hora. 

Após os encontros, os carros foram sair e bateram. Quando um descobriu o que outro fizera, uma atmosfera de tensão se criou. Todavia, cada um abraçou o outro e até choraram de alegria. 

Em alguns dias, assinaram o divórcio. Foram morar com seus namorados. Encontram-se e conversam como bons amigos. 

O amor deve sempre continuar. De uma forma. Ou de outra.


2018


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O JURAMENTO

Aquele escritor passava por um bloqueio criativo, por meses a fio. Nada conseguia escrever e tal situação o deixava desesperado. As contas se acumulavam e ele vivia fugindo de seus credores. Já havia pedido um adiantamento para o dono da editora que sempre publicava seus livros, mas debalde. Pensava até em suicídio. 

Passou a frequentar um bar que ficava perto de seu apartamento; local pequeno, barulhento e escuro, onde os fracassados como ele iam para tentar afogar suas mágoas. Passava as madrugadas ali, desmaiado na mesa; o dono tinha que pô-lo para fora. Mas como se tornou um freguês contumaz, acabou virando amigo do dono e até passaram a sair juntos, no momento que o estabelecimento fechava. 

Numa madrugada, os dois já estavam de saída; o dono já abaixa a porta e girava a chave da tranca, quando viram um vulto enorme se aproximar. O escritor achando se tratar de um delírio provocado pela bebida consumida, não deu atenção e começou a seguir seu caminho pela calçada. 

Nisso, algo rolou em direção aos seus pés que o fez dar um salto: a cabeça do dono do bar! Virando-se para a direção oposta, quase desmaiou: um ser enorme, alado, quase três metros de altura, com aspecto bem parecido com as gárgulas que existem nas catedrais antigas. A criatura, com capacidade de falar, lhe disse, com voz meio animalesca: 

- Sua vez! 

O homem tomado pelo mais profundo horror, conseguiu balbuciar a seguinte frase: 

- Por favor! Não me mate! 

Nisso o estranho ser se deteve; seus olhos negros passaram a ter um certo brilho, quase humano. E então disse: 

- Pouparei sua vida, se fizer um pacto comigo. Jure que jamais contará a pessoa alguma que me viu! Jure! 

- Juro! – O homem disse e já quase desfalecido se ajoelhou. 

Olhando para cima, viu que o mostro havia sumido; somente a cabeça e o corpo decapitado do proprietário do bar lhe faziam companhia. Tratou de sair dali já. 

Correndo pelas ruas vazias da cidade que ainda dormia, sem querer, esbarrou numa mulher que vinha em sentido contrário. Após o choque, houve o encontro de olhares e homem ficou encantado com ela: morena, rosto lindo e corpo perfeito. Apaixonou-se por ela no mesmo instante. 

A mulher se desculpou e já ia seguindo seu caminho, mas ele insistiu em acompanhá-la. Ela, meio sem jeito, concordou. 

Acabaram indo para o apartamento dele e logo depois já estavam morando juntos. Ela lhe disse o seu nome e ele descobriu ser um nome muito antigo, usado pelas mulheres da Europa Pré-Cristã. 

A partir do relacionamento com aquela mulher, a vida dele modificou-se a olhos vistos: produzia um livro atrás do outro, sempre conseguindo encabeçar a lista dos mais vendidos, dos bestsellers. Ficou famoso e rico. 

Passaram-se dez anos. 

Agora eles moravam numa luxuosa mansão, num condomínio fechado. A união gerara um casal de filhos, orgulho daquele homem. Tudo ia bem, mas ele se sentia em dívida com a mulher que lhe trouxera tantas benesses. O que seria dele sem ela? Já estaria morto, arrebatado pelo fracasso. Precisava contar a ela o que acontecera na noite em que se conheceram. Devia isso a ela. 

Numa noite, ela chegou com os filhos, depois de fazer compras. Os filhos, após beijaram o pai, foram para os seus quartos e deixaram o casal a sós. 

Nisso, o homem trouxe a esposa perto de si, e lhe disse com voz embargada: 

- Desde que te conheci, minha vida melhorou muito. Você me salvou. Se não fosse você, estaria morto há anos. Você me deu tudo. Então tenho que ser honesto com você: preciso te contar o que houve na noite em que nos conhecemos. 

E assim, detalhou o que havia acontecido: a morte do dono do bar e o aparecimento da criatura horrenda. 

A mulher ficou pálida. Seus olhos perderam o brilho e ela ficou sem ação; somente deu tempo de dizer com sua voz suave que já se alterava para um tom mais grave: 

- Por que você quebrou o juramento!? 

Então uma terrível transformação aconteceu: a mulher, tão bela de formas, tornou-se a criatura que ele havia visto tempos atrás; e olhando para trás, viu, horrorizado, que seus filhos também tomaram a mesma forma, só que em tamanho menor. 

O homem ficou aterrorizado; tentou falar algumas palavras: 

- Por favor, volte ao que era antes! 

Mas a criatura, agora em sua forma definitiva respondeu: 

- Não há como! Uma vez quebrado, o juramento não pode ser refeito! 

Em seguida, suas garras afiadas despedaçaram o peito do homem que caiu ao chão, se debatendo numa morte sofrida e lenta. 

O monstro então apanhou suas crias e saiu voando, destruindo o telhado da bela mansão. 

As investigações policiais nada apuraram e o caso acabou sendo arquivado, meses depois. 

Todavia o que ninguém, até hoje, conseguiu explicar foi o aparecimento de uma estranha estátua na Igreja Matriz da cidade, em sua torre mais alta: uma criatura com aspecto terrível, trazendo, perto de si, duas criaturas menores, qual filhos. E a expressão do rosto do monumento é o que mais chama a atenção do desavisado: um semblante sereno, mas onde reside a dor e a tristeza.


MMXVII


O RELÓGIO

A mulher acorda para mais um dia; acorda sozinha, pois seu marido já saiu para trabalhar faz algum tempo. Na cama, bem grande e espaçosa, ela se espreguiça e se levanta; devem ser oito horas da manhã. 

Calça seus chinelos e veste seu robe. O sol já bate na janela do quarto. 

Pretende ir ao banheiro, lavar seu rosto, mas no caminho algo a chama a atenção. Um barulho, uma algazarra. Dirige-se à janela e a abre. 

Então descobre a causa do ruído: crianças indo para a escola. Como sempre barulhentas, brincando umas com as outras, algo tão próprio da idade. 

Ela fica um tempo a contemplar aquela cena, mas logo volta para dentro; como que desperta de um sonho, volta ao mundo real e fecha a janela. 

Chega ao banheiro, muito bem adornado com mármore que fica junto ao seu quarto. 

Admira-se ao espelho, grande para que todos os detalhes não sejam perdidos. 

O escarcéu das crianças ainda está em sua mente. Crianças? Filhos. Poderia tê-los tido, mas tinha medo de perder as formas de seu corpo, engordar. Assim, tomara todos os cuidados para que seu ventre não gerasse fruto e ela permanecesse sempre com as formas joviais. 

Mas, agora já chegando a maturidade, será que fora uma boa escolha? Não deveria ter dado ao seu marido, um herdeiro, alguém para alegrar seus dias? Uma filha que pudesse ensinar os truques de maquiagem, as dietas da moda, comprar as roupas nas lojas mais caras... 

Divagava nestes pensamentos, quando uma voz interior lhe disse: “Louca! Filhos dão trabalho, você iria querer passar noites em claro, preocupada com eles que talvez nem se importassem com você! 

Sim, a voz que saía de seu âmago estava correta. Fizera a melhor escolha. Filhos só trariam problemas e ela ficaria gorda. 

Então ficou se admirando no espelho; ficou nua e pôs a admirar a beleza de suas formas; já tinha certa idade, não era mais uma moça, mas quantas queriam ter o seu corpo, seu cabelo, seu rosto, sua vitalidade! Ah! Que morram de inveja! 

Veste seu robe, calça seus chinelos e desce para a cozinha. 

Sua casa era uma mansão, destas que se veem nos filmes e novelas, com uma linda escadaria, com uma ampla sala de estar e tudo o que se possa imaginar na vida dos ricos e famosos. 

Já devem ser quase oito e quinze. Chega à cozinha, ampla com panelas que parecem espelhos. 

Onde estará a empregada? Então a voz que lhe falara no quarto diz: “Malditos empregados! Trata-os com respeito e dignidade e nem chegam na hora certa! Deve despedi-la como fez com outras! 

Sim! Isso mesmo. A empregada tem inveja dela, pois jamais atingirá a sua posição. 

Mas, ela será complacente; na próxima vez, o atraso resultará em demissão. 

Procura algo para comer na geladeira, tão grande e repleta de iguarias. 

Nisto, chega seu sobrinho; um adolescente de quinze anos, vestido com roupas largas e um boné, indumentária comum para os de sua geração. 

A mulher o ama de todo coração; filho de sua única irmã tem tanta confiança nele que dá a chave de sua casa; ainda que seu marido ache tal ato um tanto exagerado. 

Ela lhe dá um abraço e o jovem retribui de maneira distante. Mal diz bom dia e já lhe pede certa quantia em dinheiro. 

A mulher nem pestaneja; vai ao quarto, pega a sua bolsa, pega o cheque e o assina. 

O jovem dá um sorriso, um beijo meio apressado e some pela porta. 

Mal trocaram meia dúzia de palavras. 

A voz interior continua: “Jovens são assim mesmo! E também a louca da minha irmã não soube criá-lo. Ele não tem culpa. 

A mulher então come uma maçã e fica admirando sua cozinha; cada mordida lhe dá satisfação tanto no paladar como na visão. 

Vai para a sala, onde estão tapetes dos mais variados países, moveis de todos os lugares. Sim, tudo era dela. 

Seu marido era um homem de sorte. Ela dava festas para os amigos dele, era a esposa ideal. Sempre linda, atenta aos detalhes, ideal para um homem de negócios tão atarefado. 

Mas, onde ele estaria? Estaria na sua empresa, sempre buscando novas formas de ganhar dinheiro, expandir os negócios. Sim, eram ambiciosos. 

Ele deveria estar muito cansado, pois não a procurava nos últimos tempos; dormia como uma pedra; ferrava no sono bem cedo e acordava ainda de madrugada. 

Teria uma amante mais jovem? Poderia ser. 

Mas a voz interior continuou: Que bobagem! Ele te ama. E se tentasse te trair, perderia metade dos bens que conseguiu. E você pode arrumar um amante! 

Que vida perfeita ela tinha! Todos a admiravam. Morriam de inveja de sua posição. 

Já eram quase nove horas e ela se pôs a admirar tudo o que tinha, tudo o que tinha conquistado. 

O quadro do casal, pintura a óleo, na sala; as reportagens em uma importante revista de famosos de circulação nacional... Tudo era seu, suas conquistas. 

Mas, então sentiu um aperto no coração. Como se fosse um leve sopro de vento que anunciava uma borrasca vindoura. 

Seria feliz? Sim. Tinha tudo, era invejada, nada a podia abater... Na verdade, podia. 

Não era feliz. Todas as suas coisas nada valiam; muitos a odiavam e todos aqueles bens nada representavam. 

Neste instante, o belíssimo relógio banhado a ouro, bateu nove vezes. Neste momento, a mulher descobriu que nada tinha; a voz interior havia se emudecido, numa caluda insuportável. 

Então ela soube o enorme tamanho de sua nulidade, o enorme peso de sua solidão.

 

2016

O TERNO

Mahatma Gandhi, o grande arquiteto da independência da Índia, era o retrato da humildade. Podia usar roupas caras, mas usava apenas uma simples tanga de camponês, para se sentir mais próximo das pessoas mais simples e desvalidas de seu país. 

Certa noite, chegou vestido desta forma a uma festa oferecida por um potentado inglês. 

Os criados, ao verem aquele homem vestido de maneira inapropriada para a ocasião, não o deixaram entrar. 

Gandhi não protestou. Retornou para sua casa e, no dia seguinte, enviou através de um mensageiro, um pacote para o dono da festa. 

O homem, quando abriu o pacote, notou que continha um terno. 

Intrigado, ele visitou Gandhi e perguntou-lhe o significado daquele terno. 

Ao que ele respondeu: 

- Fui convidado para a sua festa; todavia me negaram a entrada por que não estava vestido de acordo. Ora, se é a minha roupa que valia, eu lhe enviei o meu terno.


MMX

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

OS TRÊS CÍRCULOS

Há muitos anos, moravam no Velho Oeste, um chefe índio e um caçador de búfalos. 

O último sempre gostava de dizer que sua cultura era superior à do primeiro. 

Certo dia, os dois se encontraram. O caçador, com uma varinha na mão, disse ao chefe índio, riscando no chão um pequeno círculo. 

- Veja! Isto é o que os índios sabem! 

Em seguida, desenhou um outro círculo, este, por sua vez, englobando o círculo menor. 

- Agora, observe: isto é o que os homens brancos sabem! 

O chefe índio, então, pegou a varinha das mãos do homem e desenhou um círculo ainda maior, englobando os dois primeiros: 

- Isto – disse com voz solene – é o que os índios e os homens brancos não sabem!

 

2010

OS CINCO CEGOS E O ELEFANTE

Numa pequena cidade da Índia, viviam cinco homens sábios que eram cegos. Muitas pessoas vinham de todas as partes do país para ouvirem seus conselhos sobre os mais diversos assuntos. 

Com o passar do tempo, surgiu entre eles uma rivalidade, pois cada um se julgava mais sábio do que os outros quatro. Quando se encontravam, sempre havia uma discussão sobre um tema qualquer e, via de regra, toda vez discordavam. 

O mais velho dos cinco cansou-se daquela querela absurda e decidiu evitar contato com os outros. 

Certa vez, um rico comerciante do lugarejo comprou um elefante. Para comemorar a opulenta aquisição, convidou os cinco sábios para a festa. 

Aqueles homens nunca haviam tocado num animal daqueles. Estavam curiosos e ansiosos para matarem a sua curiosidade. 

No dia da festa, o primeiro sábio entrou no recinto onde estava o elefante e tocou-lhe a barriga. Disse para os outros três: 

- Puxa, este animal é muito forte! Sua barriga parece uma muralha! 

O segundo sábio replicou, segurando as presas do bicho: 

- Estás errado! Ele é fino e pontudo! Parece uma lança de guerra! 

O terceiro sábio riu dos outros dois. Respondeu, segurando as orelhas do elefante: 

- Meus amigos, quanta bobagem! Este animal é flexível como uma cortina! 

O quarto sábio não se omitiu. Falou aos outros três, apalpando o rabo do quadrúpede: 

- Estão todos dementes! Este animal é fino e delgado como uma cobra! 

E assim ficaram por algum tempo, discutindo sobre quem estava certo. 

Finalmente, chegou o quinto sábio. O mais velho e mais prudente. 

Vinha acompanhado pelo filho do rico comerciante que o conduziu até o recinto onde estava o elefante. 

Lá chegando, ouviu a discussão dos colegas. 

Pediu ao menino que o conduzia que desenhasse no chão do pátio da casa, a figura de um elefante e fosse lhe explicando cada parte do animal. 

Tateando a tosca figura desenhada pela criança e ouvindo suas explicações, o sábio compreendeu que seus colegas estavam certos e errados ao mesmo tempo. 

E com um ar de ironia disse para si mesmo: 

- Como são tolos os homens quando se deparam com a verdade. Tocam e apalpam uma parte, imaginam que é o todo e continuam cada vez mais tolos! 

Há três pontos de vista para uma questão. O seu, o meu e o correto. Provérbio Chinês 

Não tenho medo de mudar de opinião, pois não tenho medo de pensar. Blaise Pascal

 

MMX


OS DOIS CACHORROS

Perguntado por um jovem guerreiro da tribo sobre como resolvia os seus conflitos internos, um velho chefe índio respondeu: 

- Dentro de mim, existem dois cachorros. Um deles é mau. O outro é bom. Os dois estão sempre brigando. 

Então o jovem guerreiro indagou-lhe: 

- Grande Chefe qual dos dois cachorros ganha a briga? 

- Aquele que eu alimento com mais frequência...

 

2010

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O VINHO MAIS PRECIOSO

Havia um rei que era apaixonado por vinhos. Existiam, na adega real, todos os vinhos imagináveis, produzidos com as melhores uvas, as mais caras e mais exóticas. No entanto, o monarca não se sentia satisfeito. 

Faltava um vinho que agradasse seu paladar, que o fizesse sentir um sabor jamais experimentado. Queria e desejava esta bebida que não conseguia encontrar de modo algum. 

Deixou de lado os negócios do reino. Afastou-se da administração de seu estado e entregou a ministros que, muitas vezes, pensavam mais em si mesmos do que nos interesses do povo. 

Enviou emissários a todos os cantos do mundo, a todas as nações e povos. Muitos jamais retornaram. Ainda assim, o vinho que ele tanto desejava não era encontrado. 

Cansado daquela busca infrutífera, o rei decidiu passear por suas vastas propriedades. 

Nada o alegrava ou fazia sorrir: nem seus súditos obedientes, nem as terras bem cuidadas, nem a beleza que havia em tudo aquilo. Nada o fazia sentir alegria, nada o fazia sair daquele estado de tristeza. 

Após cavalgar por algumas horas, sentiu sede. Desceu de seu cavalo e parou numa casa muito modesta, na beira da estrada. 

O dono da casa, muito humilde, ao vê-lo, ficou constrangido, pois não esperava a visita de seu soberano. Mas, o rei o tranquilizou: queria apenas molhar a garganta, seca pela poeira do caminho. 

O pobre homem foi buscar um pouco de vinho, a única coisa de valor que poderia oferecer a uma visita tão ilustre. Trouxe a garrafa e um copo de barro, bem rústico. 

Encheu o copo, ofertou ao rei que bebeu de um só gole. Entretanto, algo incrível, aconteceu. 

O sabor daquele vinho era delicioso! O rei jamais havia bebido algo semelhante! 

Enfim, sua busca terminara! 

Perguntou ao homem onde ele conseguira aquele vinho, pois iria comprar todas as garrafas que ele possuía. 

Para a surpresa do monarca, a resposta do homem foi esta: aquele vinho era produzido no próprio reino. 

O rei caiu em si e percebeu que suas buscas nada adiantaram. O que ele realmente desejava estava bem perto dele e como ele demorou a enxergar!


MMX

O VASO

Uma antiga história budista conta que num mosteiro nos contrafortes do Himalaia, o chefe da guarda faleceu. Logo, era preciso encontrar um substituto a altura. 

Apareceram muitos candidatos ao posto, todos com muita valentia e coragem. Seria difícil escolher entre tantos homens valorosos. 

O mestre do convento meditou muito até encontrar uma saída para este empecilho. 

Por fim, obteve a solução que julgou ser a mais acertada. 

Convocou todos os candidatos ao posto para se reunirem no salão central do mosteiro. 

Quando todos se reuniram, ele trouxe um vaso de porcelana magnífico, muito bem decorado e colocou-o sobre o centro da mesa onde os monges faziam as refeições. 

Todos aqueles homens estavam boquiabertos, sem entender o que se passava. 

O mestre do convento, então, falou: 

- Tenho em cima da mesa um problema. Aquele que resolvê-lo será o novo chefe da guarda! 

Os guardas ficaram sem compreender. O que deveriam fazer? Apenas se limitavam a admirar aquele vaso tão formoso. De repente, um dos guardas, sacou a sua espada e com um só golpe, despedaçou a peça! 

O mestre, com um sorriso nos lábios, disse: 

- Você é o novo chefe da guarda! 

Vendo a cara de insatisfação dos demais, explicou-lhes: 

- Meus amigos, me escutem. Disse a vocês que tinha um problema a ser resolvido. Ao invés de agirem, ficaram parados, “admirando” o problema. Agora este homem, pensou e agiu: solucionou o problema. Não se olvidem disto: um problema pode ser agradável aos olhos, mas continua sendo um problema. E problemas devem ser eliminados.


2010

O PRESENTE

Num vilarejo nas montanhas do Tibete, morava um grande guerreiro que, já sentindo o peso dos anos, resolveu se aposentar. Passava o tempo ensinando aos jovens as lições que aprendera ao longo de sua vida. 

Apesar de ser idoso, corria a história de que ainda era capaz de derrotar qualquer oponente. 

Certa manhã, outro guerreiro apareceu no vilarejo. Ficou sabendo que ali habitava um homem de lutas como ele, e sabendo da história de que o julgavam imbatível, resolveu encontrá-lo. Queria vencê-lo num duelo e assim, aumentar a sua fama. 

Chegou à casa do velho guerreiro. Quando ele apareceu na porta, o guerreiro lhe cobriu de insultos e impropérios. Disse que não era invencível, que era apenas um velho! 

Sacou a sua espada. Mas o velho homem não se moveu. Ameaçou atingi-lo com seu sabre, mas ele não se esquivou. Zombou, xingou. O velho nada fez. Apenas o encarava. 

Os discípulos do velho guerreiro viam aquela cena e nada entendiam. 

Isto se repetiu por horas. Até que aquele guerreiro, já cansado e abatido, resolveu partir. 

Os discípulos não escondiam a decepção. Por que o mestre nada fez para se defender? 

Sentindo o desencanto de seus alunos, o velho homem lhes disse: 

- Meus filhos, se alguém chega até vocês com um presente, e vocês não o aceitam, a quem pertencerá o presente? 

- A quem tentou entregá-lo - respondeu um dos discípulos. 

- Isto mesmo, meu jovem! O mesmo se aplica para os maus sentimentos e más ações: quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo.


MMX

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O CARVALHO E AS TABOAS

Num bosque, havia um carvalho frondoso e, num brejo, perto dali, algumas taboas. 

O carvalho, alto e imponente, achava aquelas taboas insignificantes: eram apenas folhas que balançavam ao vento, sem terem nenhuma força para se opor a ele. 

A árvore gostava de seu porte grandioso, de sua estatura majestosa: nada a abalava, nem a chuva. Ele era forte, impassível e inflexível. 

Então, veio uma grande tempestade. 

A terrível tormenta arrasava tudo, espalhava um rastro de destruição, sem igual. O carvalho sentia aquele vento forte em seu tronco, mas podia suportá-lo. As taboas balançavam violentamente, sacudidas para lá e para cá. O carvalho sentia pena delas e, ao mesmo tempo, sentia-se orgulhoso porque nada o poderia derrubar. 

No entanto, a tempestade aumentava em fúria. E a grande árvore sentia suas raízes saírem do chão. Tentava resistir, contudo, nada adiantava. Por fim, tombou no solo, vencida. 

E caída ao chão, viu que as taboas resistiram à tormenta.


2010

O CAIXÃO

Um fazendeiro, já sentindo o peso dos anos, deixou de cultivar os seus campos. 

Passava os seus dias sentado na varanda, feliz e satisfeito, apenas observando a natureza: as árvores frondosas, o cantar dos pássaros, enfim, a vida em movimento. 

Seu filho via tudo aquilo e, sendo insensível e egoísta, não suportava o comportamento de seu pai. Trabalhando na fazenda, às vezes, parava e dizia para si mesmo: 

- Ele é um inútil! Fica o dia inteiro sentado e faz nada! 

O filho ficou tão contrariado pelo modo como seu pai passou a levar a vida que acabou por fazer um caixão de madeira. Levou-o até a varanda onde seu velho pai estava e falou, de maneira áspera, para que ele entrasse nele. 

O velho nada disse: obedeceu a ordem insólita do filho. 

Então, ele fechou a tampa e levou o caixão para um grande abismo. 

Ao se aproximar do lugar, o velho deu uma suave batida na tampa. O homem abriu. 

O velho deitado calmamente disse com voz tranquila: 

- Filho, sei que vai me jogar neste buraco, mas antes, posso lhe fazer uma sugestão? 

- O que é? – respondeu o homem atônito e confuso pela serenidade de seu velho pai. 

- Apenas lance meu corpo velho neste abismo. Guarde este caixão de madeira, pois seus filhos irão querer usá-lo um dia com você...


MMX

A HISTÓRIA DO HOMEM

Num reino localizado nas terras do Levante, foi coroado um jovem rei. 

Como tinha apenas vinte anos, julgou como sendo fundamental, instruir-se. Para tanto, mandou reunir vários eruditos, provenientes de muitas nações e ordenou-lhes que escrevessem a história do homem, desde o início dos tempos. Os sábios, então, se dedicaram com afinco a esta tarefa. 

Passaram-se vinte anos. 

Finalmente, a obra estava pronta! Era dividida em quinhentos volumes, acomodados no dorso de dez camelos. 

O rei, entretanto, ficou desolado: 

- Jamais terei tempo para ler todos estes livros! Meus negócios exigem grande parte de meu tempo! Ordeno a vocês que façam uma versão resumida! 

Os eruditos trabalharam por mais vinte anos. A obra agora ocupava o dorso de três camelos. 

Mesmo assim, o rei ficou colérico: 

- Não conseguirei ler esta obra! Ainda está muito volumosa. Ordeno que a resumam mais! 

Os sábios trabalharam por mais dez anos. Voltaram ao palácio trazendo a obra no dorso de apenas um camelo. 

O rei, já enfraquecido pela idade, ainda não estava satisfeito. Mandou que lhe fizessem uma versão ainda mais resumida. 

Mas, a essa altura, os sábios também tinham envelhecido; alguns possuíam mais de cem anos! Todavia, atendendo às ordens reais, labutaram por mais cinco anos e, chegaram a um único volume. 

O monarca já estava agonizante em seu leito. Os sábios entraram em seu quarto. O mais velho de todos trazia consigo a obra. 

- Jamais conhecerei a história do homem! – disse o rei com a voz repleta de amargura. 

À cabeceira da cama, o mais idoso dos eruditos respondeu-lhe com uma voz fraca: 

- Majestade, irei explicar-vos em apenas três palavras toda a história do homem: o homem nasce, sofre e, finalmente, morre. 

Nesse instante, o rei faleceu.


2010

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A FLOR MAIS BELA

Dois viajantes caminhavam por uma estrada que passava por um campo repleto de flores. Havia muitas flores belíssimas, cada uma mais linda do que a outra, o que deixava aqueles homens maravilhados. 

Num certo momento, um deles parou perto de uma flor e ficou por alguns minutos, apreciando-a. Seu companheiro também parou e pôs-se a admirar o amigo que estava naquele estado contemplativo. 

De repente, aquele que estava admirando a flor recomeçou a sua caminhada. Seu companheiro o acompanhou. No entanto, uma dúvida o inquietava. 

Numa parada que fizeram para descansar, quilômetros a frente, ele o indagou: 

- Preciso te perguntar algo. 

- Sim, o que é. 

- Quando paramos para admirar aquela flor, você gostou muito dela, não foi? 

- Sim, gostei muito. Nunca havia visto uma flor tão bela em minha vida. 

E olhando para o companheiro, disse: 

- Oras, e por que você não a levou consigo? 

O homem esboçou um sorriso e falou: 

- Por dois motivos. Primeiro, porque ela não era minha. Seu dono é quem a plantou. E também se eu a levasse, veria, a cada dia, ela murchar, perder sua original beleza. 

Guardei-a em meu pensamento, e sempre que quiser irei me lembrar dela, tão formosa e perfeita!


MMX

 

A ÁGUA MAIS SABOROSA

Certa vez, um viajante sedento, caminhando pelo deserto escaldante, encontrou uma fonte de águas cristalinas num oásis. A água era tão límpida e fresca que, maravilhado, resolveu levar um pouco dela para o califa. 

Assim que matou a sua sede, ele encheu o cantil com aquela água que ele julgava ser maravilhosa. Percorreu muitos dias até alcançar o palácio do califa. 

Quando encontrou o seu soberano, curvou-se e entregou-lhe o cantil com a água que ele julgava ser a melhor do mundo. 

Contudo, ele não sabia que a água já estava estragada, pois o cantil era velho e ela ficou guardada por vários dias. 

Mas, o califa não deixou transparecer que aquela água estava imprópria para se beber: saboreou-a com uma olhar de gratidão e alegria. 

O homem, ao ver que seu soberano ficara satisfeito com o presente que lhe dera, ficou esfuziante e saiu da sala com o coração em transbordante júbilo. 

Assim que se foi, o vizir, curioso, provou daquela água cujo gosto estava terrível. E perguntou ao califa: 

- Por que não disse a ele que a água estava estragada? Por que fingiu para o pobre homem!? 

E o califa respondeu-lhe: 

- Ora, não fingi. Não foi a água que saboreei, mas o amor que ele demonstrou em seu ato de oferecimento.


2010

HÁ MALES QUE VÊM PARA NOSSO BEM – II

Aquele homem foi o único sobrevivente do naufrágio. Agarrou-se a uma tábua de madeira e acabou indo parar numa ilha deserta. Vendo que estava salvo, agradeceu a Deus. 

A ilha possuía frutas e água em abundância e fome e sede, ele não passou. Novamente, ele agradeceu a Deus. 

Com muito trabalho, ele construiu uma cabana para se abrigar da chuva e do sol. 

Quando a cabana ficou pronta, ele agradeceu a Deus, mais uma vez. 

Era necessário fogo para iluminar a noite. Friccionando duas pedras, ele conseguiu uma faísca e obteve o fogo. De novo, ele deu graças a Deus. 

O tempo foi passando e o homem começou a perder as esperanças. Será que ninguém o encontraria? Mas, sua fé era maior e ele acreditava em um milagre. 

Certo dia, ao buscar frutas para comer, o fogo que ele mantinha sempre aceso, incendiou sua cabana. Uma enorme coluna de fumaça, ergueu-se nos céus. Nada restou, além de cinzas. 

O homem ficou desesperado. E bradou: 

- Meu Deus! Por que fizeste isto comigo? Sempre te agradeço pelas coisas boas que tem me dado e me fazes isto? Por que? 

E ficou com muita raiva e começou a chorar. Depois, exausto, adormeceu. 

Quando acordou, viu que estava cercado de homens de uniforme, de marinheiros. 

Levou um susto. Não via um ser humano há meses. 

Disse-lhes que naufragara e perguntou-lhes como o acharam. 

Eles disseram que viram fumaça e suspeitaram que fosse um pedido de socorro. A fumaça vinha da cabana que, por acidente, pegou fogo. 

Vejam só: se não fosse a fumaça da cabana que incendiou-se, os marinheiros não o localizariam. 

Sendo assim, fica um ensinamento: o que pode ser, a princípio, uma catástrofe, no fundo, poderá ser uma grande realização. Saibamos, portanto, esperar: temos o defeito de querer tudo no agora, no hoje. Todavia, Deus tem o seu tempo. Confiemos n’Ele. Ele é infalível. E, sobretudo, nos ama. 

No fim, tudo melhora. Se não melhorou, é porque ainda não é o fim. Fernando Sabino


MMX

domingo, 25 de janeiro de 2026

HÁ MALES QUE VÊM PARA NOSSO BEM – I

Um fazendeiro tinha um filho que gostava muito de domar cavalos. O jovem era hábil na lida com os animais e muitas pessoas das redondezas traziam seus cavalos para que ele os amansasse. 

Porém, certo dia, ao montar em um cavalo bravio, o jovem foi jogado ao chão e teve sua perna esmagada pelo animal. Foi socorrido a tempo e sua perna foi salva. Todavia, os médicos foram taxativos: ele nunca mais poderia se dedicar à doma de cavalos. 

Aquela notícia arrasou o rapaz. Sua vida estava perdida! O que faria agora? 

Revoltou-se contra tudo e todos e ficou muito furioso. 

Seu pai, todavia, tentou consolá-lo: 

- Filho, não fique triste. Há males que vêm para nosso bem. Quando Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela. 

O jovem não deu ouvidos às palavras do velho pai. Trancou-se no seu quarto e passou dias a fio sem comer ou falar com pessoa alguma. 

Os meses foram passando e ele viu que gostava de lidar com números. Um velho livro de matemática caiu em suas mãos e ele se interessou pelas equações e polinômios. 

Passava horas e horas lidando com aquelas complicadas expressões. E decidiu-se: queria ser professor. 

Quando ia prestar os exames para entrar na universidade, estourou a guerra. Houve uma convocação geral de todos os jovens aptos para defender a pátria. Seus amigos e vizinhos foram obrigados a se alistar. Como ele tinha um problema na perna, acabou sendo dispensado. 

O tempo foi passando. 

O jovem estudava na universidade, enquanto a guerra crescia em fúria e violência. E chegavam notícias tristes: seus amigos e vizinhos morriam nos campos de batalha. 

Então, ele recordou-se daquilo o que seu velho pai lhe disse: se não sofresse aquele acidente e machucasse seriamente sua perna, com toda a certeza, seria chamado para lutar. E, talvez, perecesse no conflito. 

O jovem se formou e tornou-se um professor dedicado. E quando, ele teve seus filhos ensinou-lhes esta lição: quando Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela! 

Deus escreve certo por linhas tortas. Adágio Popular

 

2010


O BAMBUAL

Aquele rei havia subido ao trono muito jovem. Faltava-lhe experiência nos negócios e na política do reino. Dúvidas e indagações o afligiam e era necessário possuir sabedoria para governar. Mas, o que era governar?  

Seus ministros, conselheiros e súditos se dividiam entre aqueles que propunham uma política mais progressista e radical e aqueles que defendiam uma postura mais conservadora. Os dois partidos ameaçavam deflagrar uma guerra civil e perpetrar no reino um banho de sangue. Uma situação delicada e difícil para o jovem soberano. Se não governasse, sabiamente, sua cabeça também rolaria. 

Um dia, resolveu que conversaria com um mestre. Quem sabe ele o mostrasse como resolver esta terrível questão. Sua resposta seria decisiva. 

O mestre o recebeu com grande alegria, pois, soube, desde o início, que aquele jovem também era sábio e que precisava apenas de uma orientação para realizar grandes coisas naquele país. 

O jovem se aproximou e disse: 

- Mestre, desejo governar com sabedoria e justiça, como o fez Salomão. Mas, existem, em meu reino, dois partidos poderosos: o primeiro deseja mudanças e modernidade e o segundo quer manter as tradições. Os dois são muito fortes e podem travar uma terrível guerra civil. Terei que satisfazê-los, mas, como? Julgo esta missão impossível! 

O mestre olhou para aquele jovem, levantou-se e pediu que o acompanhasse. Ele o seguiu e foram até a janela. Lá fora, na mata, havia um grande bambual. 

O vento batia naqueles bambus, fazia-os ruflar e sacudir, indo para lá e para cá. Então, o mestre falou: 

- Observe estes bambus. São balouçados pelo vento, mas não se quebram! 

Acompanham o movimento do vento, “dançam” com ele; contudo, suas bases estão fixas, bem presas ao solo, imóveis. Muitas árvores caem nas tempestades e tormentas, mas um bambual cair é muito difícil. Eles conseguem unir o dinâmico com o estático, o mutável com o imutável: um exemplo de estabilidade. Aprenda com a natureza: saiba se adaptar aos novos tempos, mas procure manter os seus valores intactos. 

O jovem rei entendeu a ideia do mestre. 

Voltou ao seu reino e procurou governar com justiça e sabedoria. O reino se modernizou e se desenvolveu, todavia, não foram esquecidas as suas tradições. O rei granjeou o apoio dos dois partidos que apoiaram sua política até o fim. 

“A política é a doutrina do possível”. Bismarck

“Governar é saber administrar esperanças”. Bernardino Teixeira


MMX


ESCOLHAS...

Uma professora, querendo ensinar algo mais a seus alunos, fez um dia, o seguinte teste: perguntou-lhes quem salvariam, se pudessem salvar só uma pessoa de um grupo de três. Quando os alunos disseram que haviam entendido, ela traçou o perfil de cada uma: 

O primeiro é surdo. 

O segundo é paralítico. 

O terceiro é saudável e disciplinado. 

Os alunos começaram a rir: oras, a escolha era óbvia. Todos, sem exceção, escolheram a terceira pessoa. Afinal era a escolha da pessoa mais apta, não era? 

A professora já antevia a resposta de seus pupilos. Então, olhou para cada um deles e disse-lhes:  

- Fizeram a escolha mais lógica. Eu também, a princípio, faria a mesma escolha. Mas vejam bem: cuidado com as suas escolhas! 

Os alunos ficaram por entender. A mestra explicou-lhes: 

O surdo que vocês deixaram morrer era Ludwig von Beethoven, compositor alemão, um dos mais talentosos músicos que já existiu. Ele compôs grande parte de sua obra praticamente sem ouvir. 

O paralítico que vocês rejeitaram foi Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, um dos maiores líderes que o mundo conheceu. Quando era presidente, enfrentou desafios imensos, mas nunca deixou de acreditar na vitória de seu país, mesmo que estivesse numa cadeira de rodas. 

O homem saudável e disciplinado que vocês salvaram foi Adolf Hitler, ditador alemão, que matou milhões de pessoas inocentes. 

Silêncio na sala. Os alunos ficaram sem palavras. Haviam aprendido uma lição. 

Escolher é difícil. E muitas vezes, a primeira impressão nem sempre é a mais acertada.


2010

sábado, 24 de janeiro de 2026

TODOS SOMOS IMPORTANTES

Havia uma grande discussão na carpintaria. As ferramentas estavam discutindo para saber qual delas era a mais importante. O Martelo foi o primeiro a falar: 

- Sou o mais importante de todos! Sem mim como seriam batidos os pregos para segurar a madeira? 

A Plaina não permaneceu calada: 

- Esta é boa! Sou eu a mais importante! Sou eu quem dá o acabamento e as feições à madeira! 

O Serrote protestou: 

- E se esquecem de mim? Quem é que corta a madeira bruta, deixando-a pronta para que possam trabalhar nela? Sou eu! Logo, sou o mais importante! 

A Verruma também falou: 

- Ora! Quem faz os buracos, um trabalho muito mais difícil e complicado! 

Os pregos e os parafusos protestavam em coro: 

- Para que serviriam vocês se não juntássemos as peças de madeira? 

Foi a vez da Régua: 

- Eu sou a precisão, o exato! Sou a mais importante! 

Estavam nisto, quando o Carpinteiro de Nazaré entrou na carpintaria para fazer um púlpito. Separou a madeira, a serrou; mediu-a; a cortou; aplainou-a; escolheu os pregos e os parafusos necessários, fez os orifícios para colocar os parafusos e por fim pregou as partes que iriam formar a obra. Trabalho encerrado e obra feita, pôs-se a contemplar sua criação. 

As ferramentas nada disseram, pois estavam muito envergonhadas. Todas haviam participado daquela obra; logo nenhuma era mais importante do que outra. Todas tinham importância, todas eram essenciais, pois se uma delas faltasse, a conclusão daquela obra seria impossível. 

Assim também somos nós: todos nós somos importantes, pois temos talentos e dons. Somos “ferramentas” que o Grande Criador utiliza na construção do Bem Comum.


MMX

A CAIXA MÁGICA

Quando era estudante na UFLA, lá pelos idos de 2001, um professor contou-me esta historinha que julgo ser salutar e edificante: 

Um fazendeiro reclamava que sua propriedade nada produzia. Só dava prejuízos e muitas dores de cabeça. Angustiado, vivia culpando o governo, o tempo, a falta de chuvas, os seus empregados, enfim, tudo e todos, pela sua situação desesperadora. 

Um dia, um amigo indicou-lhe um sábio que, talvez, o ajudasse a resolver seus problemas. Apesar de um tanto cético, o fazendeiro acabou cedendo aos argumentos do amigo e foi conversar com aquele homem. 

Chegou onde o sábio habitava. Contou-lhe todas as suas dificuldades, todos os seus tormentos com aquela fazenda que só dava prejuízo. O sábio nada dizia; mas pela conversa daquele sujeito, ele já sabia, o que fazer. 

Foi até seu escritório e de lá trouxe uma caixa de madeira. Uma caixinha pequena, simples e comum. O sábio lhe disse que era uma caixa mágica, que iria resolver todos os seus problemas. Deu-a ao fazendeiro com a seguinte recomendação: ele deveria, todos os dias, ir com ela pelos quatro cantos de sua fazenda. De manhã, iria para o norte, à tarde para o sul; no outro dia, para o leste, e assim por diante. 

Dentro de um ano ele deveria retornar para lhe relatar o que havia acontecido. 

O fazendeiro pegou a caixa e, meio desconfiado e descrente, voltou para sua fazenda. 

No dia seguinte, começou a fazer o que o sábio havia indicado. Saiu com aquela caixa debaixo do braço e rumou para o norte, onde havia um imenso pasto para roçar. Ao ver aquele pasto tomado pela erva daninha, deu ordens aos seus empregados para irem lá e começar a roçá-lo. E assim foi feito. 

À tarde, ele caminhou para o sul, onde estava plantado um cafezal muito grande, mas sem os devidos tratos culturais. Ao ver aquele cafezal tão desmazelado, ordenou aos seus empregados que tomassem as providências. E assim, também, foi feito. 

E todos os dias, ele seguia uma direção diferente e sempre achava alguma coisa para fazer, para colocar em ordem. Tratava de consertar o mais rápido que podia. Passou a dedicar mais de seu tempo à fazenda. E não via as horas passarem. E sempre com aquela caixa mágica debaixo do braço. 

Depois de um ano, a fazenda tinha um novo aspecto. Havia melhorado sua produção e já começava a sair do vermelho. O proprietário ficou espantado: meu Deus, esta caixa é realmente mágica!

Como havia combinado, retornou à casa do sábio. Quando lá chegou, começou a contar-lhe o que acontecera: a fazenda estava indo bem. Disse que desejava ficar com aquela caixa mágica. Pagaria o preço que custasse. O sábio pôs-se rir e respondeu-lhe: 

- Meu caro, esta caixa não é mágica. É tão comum como outra qualquer. O que fiz foi apenas alertá-lo para que tomasse conta de suas coisas e que liderasse seus subordinados. Apenas isto. Nada vem fácil. Toda conquista tem seus custos. Apenas quando queremos fazer, podemos melhorar.” 

Como diriam os antigos, em sua inestimável sapiência: “é o olho do dono que engorda o boi”.


2010

A CRUZ MAIS PESADA

Havia um homem que sempre reclamava a Deus, dizendo que sua cruz era muito pesada: sua vida era um amontoado de problemas e ele era a pessoa mais infeliz do mundo. 

Seu vizinho tentava acalmá-lo, dizendo que existiam pessoas em situação pior; todavia, nada o fazia mudar de opinião. Sua cruz era a mais pesada da face da terra! 

Certa noite, este homem teve um sonho. No sonho, ele estava no depósito das cruzes. Lá podia se ver todos os tipos de cruzes, dos mais variados tamanhos e tipos. 

Então, se deparou com o Filho do Homem que lhe falou: 

- Já que reclamas tanto da tua cruz, deixarei que escolhas a que quiser! 

O homem ficou sem palavras; seus olhos se detiveram numa cruz de ferro, muito grande e pesada. 

- De quem seria esta? – perguntou. 

- Esta pertence ao teu vizinho – disse o Divino Mestre. 

O homem ficou envergonhado: com uma cruz pesada daquelas, seu vizinho era uma pessoa serena, tranquila, que não reclamava da vida que levava. 

- Vamos, faça já a tua escolha! – ordenou Jesus. 

O homem procurou por algum tempo; por fim, encontrou uma que lhe apetecia: uma pequena cruz de madeira, que ele julgou ser a menor das que havia naquele estranho lugar. 

Quando ia deixando o depósito, notou que todas as cruzes possuíam nomes, os nomes das pessoas a que pertenciam. 

Curioso, ele olhou para aquela pequenina cruz e viu que seu nome estava nela. 

Um homem vivia se queixando porque só comia bananas, mas parou de reclamar quando viu outro homem comendo a casca.

 

MMX

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A DIVERSIDADE GERA A UNIDADE

Um discípulo, certa vez, indagou ao seu mestre: 

- Mestre, por que existe tanta diferença entre os homens? Por que existem tantas raças, credos, línguas, povos e nações? Por que cada um tem suas características próprias que o tornam diferente dos demais, causando conflitos e dificuldades que acontecem em todo o mundo? Não seria melhor se Deus fizesse cada homem igual? Se Ele o assim fizesse, não haveria guerras, brigas e o mundo viveria em paz. 

O mestre olhou para o horizonte e, após pensar algum tempo, respondeu à indagação do pupilo, que ansiava por suas palavras de sabedoria:

- Sim, meu caro. Podes até ter alguma razão em sua teoria: se todos fôssemos iguais, iríamos gostar das mesmas coisas e não aconteceriam conflitos e guerras entre os seres humanos. Todavia, pensai bem: se houvesse um só tipo de ser humano, uma só raça, uma só crença, uma só língua e uma só nação, o mundo seria mais triste, pois o que torna a vida alegre é a diversidade de cores, raças, credos e línguas. O ser humano, sendo múltiplo, realiza coisas incríveis. 

O discípulo pediu um exemplo. O Mestre não se esquivou: 

- Olhai para sua mão. Veja seus dedos. Se todos os seus dedos fossem iguais, você poderia realizar um número diminuto de tarefas. Como cada um possui um tamanho diferente, a mão é uma ferramenta maravilhosa. E todos eles são os dedos da mesma mão, apesar de diferentes. Em suma: a diversidade gera a unidade. O discípulo entendeu a lição do mestre. O progresso humano não é conseguido pela uniformidade, pela padronização de pessoas ou de determinado grupo ou raça. Quando respeitamos o que é diferente estamos aceitando a nossa unidade, a grande irmandade a qual todos nós pertencemos.

 

2010

UNIDOS CONSTRUÍMOS NOSSA FORTALEZA

Numa savana da África, existiam quatro búfalos. Eles pastavam naquela planície, desfrutando uma vida tranquila e agradável: havia muito pasto, água límpida e fresca. 

Enfim, tudo o que desejam estava ao alcance deles. 

Nesta mesma savana, morava um leão. Sempre rondava aqueles quatro búfalos, buscando devorá-los. Todavia, seus planos eram baldados. 

Assim que os búfalos sentiam a presença da fera, juntavam-se no meio da planície, formando um círculo. Com seus chifres ameaçadores, apontados em sua direção, o felino nada podia fazer: tinha que recuar e deixá-los em paz. 

E assim era: toda vez que o perigo se aproximava daqueles animais, eles, seguindo seus instintos, iam para o centro da savana e armavam as suas defesas: todos defendiam todos. E o feroz carnívoro batia em retirada. 

Mas, um dia, os búfalos começaram a se desentender. Surgiram atritos, brigas e eles se separaram. Era tudo o que leão queria. 

Atacou-os e os emboscou, separadamente. Nenhum sobreviveu: todos foram trucidados pela fera. 

Moral da historinha: a união faz a força, unidos construímos nossa fortaleza. De fato, cada pessoa tem os seus próprios interesses e possui os seus próprios objetivos. Possui suas qualidades e seus méritos. No entanto, é necessário que haja união para fazermos as grandes coisas. É imprescindível que exista cooperação para alcançarmos o Bem Comum. Quando cada pessoa dá o melhor de si para construir algo melhor, oferta seu tempo e suas habilidades, concentra seus esforços na realização de obras comunitárias, o resultado é sempre positivo. Quando cada um se afasta, fica alheio ao que acontece à sua volta, luta sozinho, ele perde, todos perdem. Unidos somos fortes. Só quando este pensamento for levado a sério é que poderemos fazer o que antes julgávamos ser impossível

Quando os homens se unem, perdem a noção de suas fraquezas”. Montesquieu 

“Não fez. Ajudou a fazer”. Geraldo Raimundo de Sousa – LALAI


MMX

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos ...