sábado, 31 de janeiro de 2026

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos praticar tais atos, seguindo os nossos ensinamentos cristãos, todavia, como não sou nem desejo ser, perfeito, sabia que, enquanto não fizesse algo a respeito não teria paz e sossego. 

Precisava resolver este assunto para continuar minha vida pecadora. 

Conhecia X. de longa data; era uma pessoa muito afável, que gostava de companhia e sempre era visto nas festas e eventos que aconteciam em nossa cidade. Também praticava a filantropia, ainda mais quando poderia tirar algum proveito ou vantagem. 

Um homem alegre, casado e com filhos. Alguém que você gostaria de conhecer, mas pensaria duas vezes antes de conviver. 

Ele tinha muitos gostos semelhantes aos meus e poderíamos conversar durante horas sobre tais temas. Mas, se você queria realmente deixá-lo interessado num diálogo, era envolvê-lo numa conversa sobre automóveis. Esta, sem dúvida alguma, era a sua paixão. 

Ele poderia ficar sem se alimentar, sem se vestir, mas ficar sem carro era algo impensável. Sabia como poucos citar os termos técnicos de cada veículo, avaliar o desempenho de cada modelo, os prós e contra de cada marca. Era até educativo vê-lo dizendo que já tivera mais de uma dezena de carros ao longo de sua vida e que jamais perdera dinheiro na compra e venda. 

Certa vez, escutando as suas explanações, foi que entendi que o meu desejo de vingança seria plenamente satisfeito usando a sua paixão pelos carros. Seria um plano perfeito, bem executado e que não deixaria rastros. 

Nos próximos meses, arquitetei tudo com zelo e precaução; tudo tinha que estar bem concatenado para que o projeto fluísse perfeitamente. Dediquei-me com afinco em cada detalhe, em cada nuance. 

Numa tarde, encontrei-o num bar, onde costumava ficar; para minha sorte, ele estava sozinho. Comecei a entabular uma conversa amistosa sobre assuntos amenos. No final, já me despedindo, citei que havia comprado um carro, mas não tinha certeza de que havia feito um bom negócio. 

Jamais me esquecerei dos olhos dele: ficaram faiscando de curiosidade. Meu plano estava começando a dar certo. 

Já me levantando, disse que não precisaria se preocupar, que estava em seu período de descanso, que deveria ir para sua casa e ficar com sua família. Nada disso o fez demover da ideia: levantou-se, deixou o dinheiro de sua conta na mesa e, segurando o meu braço, me fez levá-lo até onde estava o carro. 

Tentei fazê-lo desistir, mas debalde. Ele queria ver o veículo de toda maneira. 

Dias antes, havia ido a uma concessionária e consegui um carro para uma avaliação. Como tinha bons antecedentes e era conhecido, o dono fez questão que levasse o veículo e que fizesse uma avaliação de alguns dias, um tipo de test-drive mais prolongado. Assinei um termo de responsabilidade e saí dirigindo, sem despertar suspeita alguma de meu real propósito. 

O veículo era um modelo usado de uma marca famosa; contava apenas dois anos de uso e estava em ótimas condições de conservação. 

Quando apresentei o carro a X., ele começou a me bombardear com termos técnicos, mas disse para darmos uma volta. Dirigimo-nos para um lugar ermo, um mirante, perto de um penhasco no mar. Para minha sorte, não havia ninguém por ali; tudo poderia correr conforme o planejado. 

Chegamos ao local, descemos do carro e começamos a ver o motor e outros componentes. Ele sempre muito entusiasmado, repleto de atenção e interesse. 

O local tinha um aclive que levava diretamente para o precipício. O carro estava a cerca de vinte metros do abismo, logicamente, com os freios acionados. Ele nem suspeitava do desfecho de tudo e continuava olhando cada detalhe do bólido. 

Disse-lhe para entrar no veículo e me dizer o que achava do banco do motorista, se era confortável ou precisaria trocar. Ele, sem nada perceber, o fez. 

Nisto, bem rapidamente, acionei a chave eletrônica do carro, travando as portas, destravando o freio de serviço, colocando o veículo em movimento, descendo o aclive onde estava parado. 

Ele, totalmente atônito, não teve tempo para tomar qualquer atitude; o carro ganhou velocidade e caiu no penhasco, sendo engolido pelo oceano em questão de segundos. 

Para me desvencilhar de qualquer vínculo com o ocorrido, atirei a chave eletrônica no mar. No dia seguinte, fui à concessionária comunicar que o carro havia sido roubado; antes havia informado às autoridades policiais sobre o fato. 

O gerente ficou um pouco nervoso, mas disse-me para ir embora, pois a seguradora cobriria tudo. 

A família de X. o procurou por algum tempo, mas sem sucesso. Logo se descobriu que ele mantinha uma amante de longa data, o que fez com que sua esposa desistisse de encontrá-lo. O caso foi arquivado pela polícia, meses depois. No consenso de todos, X. havia fugido com sua amante e jamais voltaria. 

Quanto a mim, jamais fui procurado para prestar esclarecimentos, mas lamentei a perda de tão estimada pessoa, fazendo um brinde em sua memória, no bar onde costumávamos ir. 

Somente no século XXIII, foi que alguns mergulhadores encontraram, no fundo do mar, um veículo do século XXI com um esqueleto dentro. 


Requiescat in pace!


2020

PLANÍCIE

Sim, finalmente, depois de anos, ela conseguia se casar com aquele homem que tanto amava; uma década de um namoro, de altos e baixos, um noivado de idas e vindas, mas no final ela poderia chamar o seu amado de marido. Um momento que tanto esperava! 

Tudo estava bem: a mãe do amado gostava muito dela, ela tinha um emprego muito bom, estava no melhor momento de sua carreira, tinha saúde e uma beleza de causar inveja. Poderia dizer, sem susto, que estava no seu auge, no seu apogeu. 

O marido, um homem um tanto conservador, tinha um emprego de menor destaque que ela, mas fazia questão de atender todos os seus desejos de sua amada: uma roupa bonita, ir a um restaurante caro, mobiliar a casa como ela queria. Um verdadeiro conto de fadas começava para ela que não se cabia de satisfação e alegria. 

O tempo passou: os meses, logo viraram anos. O amado agora parecia mais preocupado com o trabalho do que com ela. Seu zelo para com suas atribuições lhe despertava um misto de admiração e raiva. Passou a se sentir em segundo plano na vida do marido. 

No seu emprego, ela via as amigas viajando com seus namorados e maridos para o exterior ou um destino mais modesto e sentia uma falta de interesse de seu companheiro. Ela que sempre gostava tanto de conhecer outros lugares e tinha feito planos na juventude, se sentia com uma pontinha de frustração, mas nada comentava com ele. 

Depois do trabalho, ia conversar com sua mãe; uma senhora de cabelos embranquecidos e calejada pelas agruras que sofrera durante sua vida. E a conversa era a mesma: isto é coisa do casamento, que se acostumasse. As palavras maternas, longe de lhe trazerem conforto, segurança e serenidade, acabavam, com o passar do tempo, a lhe despertar um agudo desespero. 

Em algum tempo, o marido começou a chegar tarde em casa. Se eximia de desculpas e só queria tomar o seu banho, comer alguma coisa, assistir TV e dormir. No início, ela até aceitou, mas logo exigiu satisfação. 

A resposta foi truculenta: em um dia, depois de uma discussão mais exaltada, o homem lhe deu um soco no rosto. Depois disso, passaram a dormir em quartos separados, onde ela sempre molhava o seu travesseiro com suas lágrimas. 

Ao tentar desabafar com sua mãe, ouviu o que menos esperava: a culpa era dela que não entendia as necessidades dele. Reiterava as palavras já ditas: se acostumasse e deveria agradecer, todos os dias, por ter um marido tão zeloso. 

Para completar, sua sogra passou a lhe tratar com indiferença; no fundo nunca consentiu com aquele casamento, pois achava que seu filho merecia outra mulher. Agora, como que justificada por alguma causa desconhecida, passou a exigir que lhe ajudasse de sua casa. 

Assim, ela passou a cumprir uma rotina tríplice: trabalhar em seu emprego, limpar sua casa e a casa da mãe do amado (sogra). Uma extenuante jornada. 

Num belo dia, resolveu que daria termo àquilo: um divórcio, uma nova vida, uma nova chance de ser feliz. Todo o que ela queria ardentemente. 

Nisto, algo interessante aconteceu: todos ao seu redor se reuniram para demovê-la daquela ideia: afirmavam que formavam um belo casal, que seria loucura deixar aquela vida tão boa. 

E como se uma tempestade cessasse, ela se viu forçada a aceitar; o marido prometeu que a trataria bem, nunca mais a machucaria e passaram a ir a uma reunião de casais numa denominação evangélica; a sogra passou a contar com os serviços de uma empregada e a dizer para todos que sua nora era preguiçosa (seu filho se casara mal, pois nem netos ela lhe deu) e sua mãe agradeceu a Deus pelo casamento da filha ter continuado. 

E assim, como olhando para uma imensa planície que se descortinava à sua frente, ela pareceu se sentir conformada. Sua vida não teria a coloração favorita, mas teria alguma cor; não teria os seus sonhos realizados, mas pelo menos dormiria bem à noite; o marido não seria o galã romântico da novela, mas também não seria o vilão de bigodes finos. 

Consagrava o resto de seus dias a uma doirada e tola mediocridade. 

 

MMXX

O AMOR DEVE CONTINUAR

Formavam um belo casal. Todos diziam isso. Nos acontecimentos sociais, sempre eram invejados, pois brilhavam mais do que todos. Eram de uma cumplicidade sem igual, um amor que parecia ser daqueles de romance. 

Se conheciam desde criança; estudaram na mesma escola; começaram a namorar ainda adolescentes e quando anunciaram o casamento não foi surpresa para seus pais. Era uma inevitável e bem vinda consequência. 

Também eram profissionais respeitáveis em suas atividades. Tinham uma bela casa, uma boa reserva financeira e estavam pretendendo ter filhos. Uma vida perfeita e maravilhosa. 

Contudo neste mundo de felicidade, havia algo que incomodava os dois: como seria estar com outra pessoa? Se relacionar, conviver, ter uma vida de casal diferente daquela? 

Esse pensamento surgiu na mente dos dois de forma simultânea. Logicamente, que não iriam comentar isso numa conversa, pois tinham medo da reação do outro. Era um assunto proibido que não poderia ser mencionado. O que ele pensaria dela? O que ela pensaria dele? E também, com o passar do tempo, tal sentimento seria esquecido. 

Os anos se passaram. 

A vida deles continuava boa: no trabalho, em casa, tudo ia bem. Mas sentiam que faltava algo. O sentimento que julgavam estar morto, estava latente, exigindo uma reação. E os dois, como se nada estivesse acontecendo, tentavam seguir suas vidas. 

Mas, a vontade, o desejo era demais. E ele, depois do serviço, conseguiu levar uma colega de trabalho para o motel. E ela, depois de seu expediente, conseguiu que um colega de trabalho a levasse para o motel. No mesmo lugar, na mesma hora. 

Após os encontros, os carros foram sair e bateram. Quando um descobriu o que outro fizera, uma atmosfera de tensão se criou. Todavia, cada um abraçou o outro e até choraram de alegria. 

Em alguns dias, assinaram o divórcio. Foram morar com seus namorados. Encontram-se e conversam como bons amigos. 

O amor deve sempre continuar. De uma forma. Ou de outra.


2018


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O JURAMENTO

Aquele escritor passava por um bloqueio criativo, por meses a fio. Nada conseguia escrever e tal situação o deixava desesperado. As contas se acumulavam e ele vivia fugindo de seus credores. Já havia pedido um adiantamento para o dono da editora que sempre publicava seus livros, mas debalde. Pensava até em suicídio. 

Passou a frequentar um bar que ficava perto de seu apartamento; local pequeno, barulhento e escuro, onde os fracassados como ele iam para tentar afogar suas mágoas. Passava as madrugadas ali, desmaiado na mesa; o dono tinha que pô-lo para fora. Mas como se tornou um freguês contumaz, acabou virando amigo do dono e até passaram a sair juntos, no momento que o estabelecimento fechava. 

Numa madrugada, os dois já estavam de saída; o dono já abaixa a porta e girava a chave da tranca, quando viram um vulto enorme se aproximar. O escritor achando se tratar de um delírio provocado pela bebida consumida, não deu atenção e começou a seguir seu caminho pela calçada. 

Nisso, algo rolou em direção aos seus pés que o fez dar um salto: a cabeça do dono do bar! Virando-se para a direção oposta, quase desmaiou: um ser enorme, alado, quase três metros de altura, com aspecto bem parecido com as gárgulas que existem nas catedrais antigas. A criatura, com capacidade de falar, lhe disse, com voz meio animalesca: 

- Sua vez! 

O homem tomado pelo mais profundo horror, conseguiu balbuciar a seguinte frase: 

- Por favor! Não me mate! 

Nisso o estranho ser se deteve; seus olhos negros passaram a ter um certo brilho, quase humano. E então disse: 

- Pouparei sua vida, se fizer um pacto comigo. Jure que jamais contará a pessoa alguma que me viu! Jure! 

- Juro! – O homem disse e já quase desfalecido se ajoelhou. 

Olhando para cima, viu que o mostro havia sumido; somente a cabeça e o corpo decapitado do proprietário do bar lhe faziam companhia. Tratou de sair dali já. 

Correndo pelas ruas vazias da cidade que ainda dormia, sem querer, esbarrou numa mulher que vinha em sentido contrário. Após o choque, houve o encontro de olhares e homem ficou encantado com ela: morena, rosto lindo e corpo perfeito. Apaixonou-se por ela no mesmo instante. 

A mulher se desculpou e já ia seguindo seu caminho, mas ele insistiu em acompanhá-la. Ela, meio sem jeito, concordou. 

Acabaram indo para o apartamento dele e logo depois já estavam morando juntos. Ela lhe disse o seu nome e ele descobriu ser um nome muito antigo, usado pelas mulheres da Europa Pré-Cristã. 

A partir do relacionamento com aquela mulher, a vida dele modificou-se a olhos vistos: produzia um livro atrás do outro, sempre conseguindo encabeçar a lista dos mais vendidos, dos bestsellers. Ficou famoso e rico. 

Passaram-se dez anos. 

Agora eles moravam numa luxuosa mansão, num condomínio fechado. A união gerara um casal de filhos, orgulho daquele homem. Tudo ia bem, mas ele se sentia em dívida com a mulher que lhe trouxera tantas benesses. O que seria dele sem ela? Já estaria morto, arrebatado pelo fracasso. Precisava contar a ela o que acontecera na noite em que se conheceram. Devia isso a ela. 

Numa noite, ela chegou com os filhos, depois de fazer compras. Os filhos, após beijaram o pai, foram para os seus quartos e deixaram o casal a sós. 

Nisso, o homem trouxe a esposa perto de si, e lhe disse com voz embargada: 

- Desde que te conheci, minha vida melhorou muito. Você me salvou. Se não fosse você, estaria morto há anos. Você me deu tudo. Então tenho que ser honesto com você: preciso te contar o que houve na noite em que nos conhecemos. 

E assim, detalhou o que havia acontecido: a morte do dono do bar e o aparecimento da criatura horrenda. 

A mulher ficou pálida. Seus olhos perderam o brilho e ela ficou sem ação; somente deu tempo de dizer com sua voz suave que já se alterava para um tom mais grave: 

- Por que você quebrou o juramento!? 

Então uma terrível transformação aconteceu: a mulher, tão bela de formas, tornou-se a criatura que ele havia visto tempos atrás; e olhando para trás, viu, horrorizado, que seus filhos também tomaram a mesma forma, só que em tamanho menor. 

O homem ficou aterrorizado; tentou falar algumas palavras: 

- Por favor, volte ao que era antes! 

Mas a criatura, agora em sua forma definitiva respondeu: 

- Não há como! Uma vez quebrado, o juramento não pode ser refeito! 

Em seguida, suas garras afiadas despedaçaram o peito do homem que caiu ao chão, se debatendo numa morte sofrida e lenta. 

O monstro então apanhou suas crias e saiu voando, destruindo o telhado da bela mansão. 

As investigações policiais nada apuraram e o caso acabou sendo arquivado, meses depois. 

Todavia o que ninguém, até hoje, conseguiu explicar foi o aparecimento de uma estranha estátua na Igreja Matriz da cidade, em sua torre mais alta: uma criatura com aspecto terrível, trazendo, perto de si, duas criaturas menores, qual filhos. E a expressão do rosto do monumento é o que mais chama a atenção do desavisado: um semblante sereno, mas onde reside a dor e a tristeza.


MMXVII


O RELÓGIO

A mulher acorda para mais um dia; acorda sozinha, pois seu marido já saiu para trabalhar faz algum tempo. Na cama, bem grande e espaçosa, ela se espreguiça e se levanta; devem ser oito horas da manhã. 

Calça seus chinelos e veste seu robe. O sol já bate na janela do quarto. 

Pretende ir ao banheiro, lavar seu rosto, mas no caminho algo a chama a atenção. Um barulho, uma algazarra. Dirige-se à janela e a abre. 

Então descobre a causa do ruído: crianças indo para a escola. Como sempre barulhentas, brincando umas com as outras, algo tão próprio da idade. 

Ela fica um tempo a contemplar aquela cena, mas logo volta para dentro; como que desperta de um sonho, volta ao mundo real e fecha a janela. 

Chega ao banheiro, muito bem adornado com mármore que fica junto ao seu quarto. 

Admira-se ao espelho, grande para que todos os detalhes não sejam perdidos. 

O escarcéu das crianças ainda está em sua mente. Crianças? Filhos. Poderia tê-los tido, mas tinha medo de perder as formas de seu corpo, engordar. Assim, tomara todos os cuidados para que seu ventre não gerasse fruto e ela permanecesse sempre com as formas joviais. 

Mas, agora já chegando a maturidade, será que fora uma boa escolha? Não deveria ter dado ao seu marido, um herdeiro, alguém para alegrar seus dias? Uma filha que pudesse ensinar os truques de maquiagem, as dietas da moda, comprar as roupas nas lojas mais caras... 

Divagava nestes pensamentos, quando uma voz interior lhe disse: “Louca! Filhos dão trabalho, você iria querer passar noites em claro, preocupada com eles que talvez nem se importassem com você! 

Sim, a voz que saía de seu âmago estava correta. Fizera a melhor escolha. Filhos só trariam problemas e ela ficaria gorda. 

Então ficou se admirando no espelho; ficou nua e pôs a admirar a beleza de suas formas; já tinha certa idade, não era mais uma moça, mas quantas queriam ter o seu corpo, seu cabelo, seu rosto, sua vitalidade! Ah! Que morram de inveja! 

Veste seu robe, calça seus chinelos e desce para a cozinha. 

Sua casa era uma mansão, destas que se veem nos filmes e novelas, com uma linda escadaria, com uma ampla sala de estar e tudo o que se possa imaginar na vida dos ricos e famosos. 

Já devem ser quase oito e quinze. Chega à cozinha, ampla com panelas que parecem espelhos. 

Onde estará a empregada? Então a voz que lhe falara no quarto diz: “Malditos empregados! Trata-os com respeito e dignidade e nem chegam na hora certa! Deve despedi-la como fez com outras! 

Sim! Isso mesmo. A empregada tem inveja dela, pois jamais atingirá a sua posição. 

Mas, ela será complacente; na próxima vez, o atraso resultará em demissão. 

Procura algo para comer na geladeira, tão grande e repleta de iguarias. 

Nisto, chega seu sobrinho; um adolescente de quinze anos, vestido com roupas largas e um boné, indumentária comum para os de sua geração. 

A mulher o ama de todo coração; filho de sua única irmã tem tanta confiança nele que dá a chave de sua casa; ainda que seu marido ache tal ato um tanto exagerado. 

Ela lhe dá um abraço e o jovem retribui de maneira distante. Mal diz bom dia e já lhe pede certa quantia em dinheiro. 

A mulher nem pestaneja; vai ao quarto, pega a sua bolsa, pega o cheque e o assina. 

O jovem dá um sorriso, um beijo meio apressado e some pela porta. 

Mal trocaram meia dúzia de palavras. 

A voz interior continua: “Jovens são assim mesmo! E também a louca da minha irmã não soube criá-lo. Ele não tem culpa. 

A mulher então come uma maçã e fica admirando sua cozinha; cada mordida lhe dá satisfação tanto no paladar como na visão. 

Vai para a sala, onde estão tapetes dos mais variados países, moveis de todos os lugares. Sim, tudo era dela. 

Seu marido era um homem de sorte. Ela dava festas para os amigos dele, era a esposa ideal. Sempre linda, atenta aos detalhes, ideal para um homem de negócios tão atarefado. 

Mas, onde ele estaria? Estaria na sua empresa, sempre buscando novas formas de ganhar dinheiro, expandir os negócios. Sim, eram ambiciosos. 

Ele deveria estar muito cansado, pois não a procurava nos últimos tempos; dormia como uma pedra; ferrava no sono bem cedo e acordava ainda de madrugada. 

Teria uma amante mais jovem? Poderia ser. 

Mas a voz interior continuou: Que bobagem! Ele te ama. E se tentasse te trair, perderia metade dos bens que conseguiu. E você pode arrumar um amante! 

Que vida perfeita ela tinha! Todos a admiravam. Morriam de inveja de sua posição. 

Já eram quase nove horas e ela se pôs a admirar tudo o que tinha, tudo o que tinha conquistado. 

O quadro do casal, pintura a óleo, na sala; as reportagens em uma importante revista de famosos de circulação nacional... Tudo era seu, suas conquistas. 

Mas, então sentiu um aperto no coração. Como se fosse um leve sopro de vento que anunciava uma borrasca vindoura. 

Seria feliz? Sim. Tinha tudo, era invejada, nada a podia abater... Na verdade, podia. 

Não era feliz. Todas as suas coisas nada valiam; muitos a odiavam e todos aqueles bens nada representavam. 

Neste instante, o belíssimo relógio banhado a ouro, bateu nove vezes. Neste momento, a mulher descobriu que nada tinha; a voz interior havia se emudecido, numa caluda insuportável. 

Então ela soube o enorme tamanho de sua nulidade, o enorme peso de sua solidão.

 

2016

O TERNO

Mahatma Gandhi, o grande arquiteto da independência da Índia, era o retrato da humildade. Podia usar roupas caras, mas usava apenas uma simples tanga de camponês, para se sentir mais próximo das pessoas mais simples e desvalidas de seu país. 

Certa noite, chegou vestido desta forma a uma festa oferecida por um potentado inglês. 

Os criados, ao verem aquele homem vestido de maneira inapropriada para a ocasião, não o deixaram entrar. 

Gandhi não protestou. Retornou para sua casa e, no dia seguinte, enviou através de um mensageiro, um pacote para o dono da festa. 

O homem, quando abriu o pacote, notou que continha um terno. 

Intrigado, ele visitou Gandhi e perguntou-lhe o significado daquele terno. 

Ao que ele respondeu: 

- Fui convidado para a sua festa; todavia me negaram a entrada por que não estava vestido de acordo. Ora, se é a minha roupa que valia, eu lhe enviei o meu terno.


MMX

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

OS TRÊS CÍRCULOS

Há muitos anos, moravam no Velho Oeste, um chefe índio e um caçador de búfalos. 

O último sempre gostava de dizer que sua cultura era superior à do primeiro. 

Certo dia, os dois se encontraram. O caçador, com uma varinha na mão, disse ao chefe índio, riscando no chão um pequeno círculo. 

- Veja! Isto é o que os índios sabem! 

Em seguida, desenhou um outro círculo, este, por sua vez, englobando o círculo menor. 

- Agora, observe: isto é o que os homens brancos sabem! 

O chefe índio, então, pegou a varinha das mãos do homem e desenhou um círculo ainda maior, englobando os dois primeiros: 

- Isto – disse com voz solene – é o que os índios e os homens brancos não sabem!

 

2010

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos ...