sábado, 27 de dezembro de 2025

MÃO AMIGA

Aquela mulher era lindíssima. Desde cedo, já chamara a atenção dos homens.

Um dia, se apaixonou perdidamente. Em pouco tempo, já estava casada.

Mas logo, a sua felicidade feneceria. Aquele homem mostrou-se ser violento e dominador, dotado de um ciúme doentio.

A sua vida havia se transformando num tormento: ele a mantinha sob vigilância, seguia seus passos.

Certa vez, a espancou, deixando-lhe um grande hematoma no rosto. A impediu de denunciá-lo a polícia, ameaçando-a de morte.

Na rua, encontrou com um velho colega de escola. Os dois conversaram e, para a sorte dos dois, o marido estava viajando neste dia.

O rapaz lhe contou que estava estudando para se advogado e que trabalhava num escritório próximo. Ao lhe perguntar como estava indo a sua vida, a mulher não pode resistir e chorou copiosamente. Ele ficou sem ação: ela lhe relatou o que ela passava, as humilhações, o constante terror.

Ele se viu diante de um dilema: ali estava, à sua frente, o seu grande amor, que um dia, o trocara por outro, deixando seu coração em pedaços, precisando de sua ajuda.

Mas, porque ajudar? Ela não merecia. Se casara por que quisera, por sua própria vontade.

Contudo, algo dentro do seu coração, o fez mudar de ideia: iria ajudá-la.

Disse que iriam ao seu escritório e que tudo seria resolvido.

Ela se divorciou e foi viver com os pais, começando uma nova vida. O ex-marido nunca mais a incomodou.

Ele poderia pedi-la em casamento, mas não o fez. Tinha a certeza, em seu íntimo, de que, se ela se casasse com ele, não seria por amor e sim por gratidão.


2003

domingo, 7 de dezembro de 2025

A DOR DO PALHAÇO

Aquele palhaço irá alegrar a plateia, mais uma vez. Contudo, está muito preocupado: seu pai está no hospital, em estado grave.

Queria estar lá com ele, mas o seu pai, também um famoso palhaço, lhe pediu que não adiasse a apresentação. Não queria que as crianças ficassem sem um sorriso, sem alegria.

Pouco antes de entrar no palco, procura, desesperado, notícias paternas. Contudo, ninguém é capaz de lhe responder.

Seu coração começa a bater mais forte e lhe vem à mente, todas as cenas das apresentações que fizeram juntos. Seu pai era um mestre, um amigo que sempre o ajudou nos momentos mais difíceis, fosse no palco ou fosse na vida.

Por fim, entrou no palco. As crianças se encantaram ao vê-lo. Proporcionou a elas momentos de alegria e descontração.

No fim do espetáculo, lhe foi dada a triste notícia: seu pai falecera, enquanto apresentava-se.

Tomado por pungente dor, procurou não chorar. Veio à sua mente um pensamento que ele sempre lhe dizia, nos momentos mais complicados:

- “Quem enxuga as lágrimas alheias, não tem tempo para chorar”.


MMIII

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A DOCE MELODIA

Todos os dias, a caminho do trabalho, ouvia uma voz melodiosa que se erguia pelos ares, igual a uma sinfonia mágica. Uma voz lindíssima que vinha de algum lugar misterioso.

Sempre na mesma rua, sempre na mesma hora, sempre a mesma canção. Tão suave, leve e simples, fazia com que ele esquecesse, por alguns instantes, os problemas do trabalho e em casa.

Com o tempo, foi tomado pelo desejo incontido de descobrir quem era a dona daquela voz.

Tentou descobrir perguntando aos moradores daquela rua, mas nenhum deles foi capaz de responder à sua pergunta. Ninguém ouvira nada, disseram a ele.

Seria louco então!? Só ele era capaz de ouvir aquela melodia?

Passaram-se alguns anos e a música sempre estava presente quando ele ia para o trabalho.

Colocou um anúncio no jornal, pagando para que a dona da voz se identificasse.

Muitos apareceram, porém, não eram donos daquela voz que cantava a doce melodia.

Certo dia, não a ouviu mais. A voz havia se silenciado.

Passou várias vezes na mesma rua e nunca mais ouviu a canção.

Com o tempo, esqueceu-a.

Numa tarde, voltando do trabalho, reencontrou um amigo de infância que há anos não via. Mudou-se para aquela rua havia poucos dias. A “rua da melodia”.

Foram até a casa dele.

A esposa do amigo ainda arrumava a casa, quando eles chegaram. Ele a ajudou a colocar algumas caixas na prateleira.

Depois disso, foram para o alpendre, conversar.

No meio da conversa, ela comentou que naquela casa morava uma família e que a filha do casal sofria uma doença incurável que lhe causava dores horríveis. Tinha apenas dezessete anos. Os médicos nada podiam fazer.

Segundo sua mãe, ela passava os dias cantando. Esta era a sua única diversão, que a fazia esquecer, por alguns momentos, a dor que lhe afligia.

Depois que a filha faleceu, se mudaram para o interior.

- Então era ela – pensou consigo.

E a melodia, tanto tempo esquecida, ressoou em sua mente.


2003

  



O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos ...