domingo, 2 de novembro de 2025

A FILHA

Esperou ansiosamente o nascimento da filha. Quando ela nasceu, sentiu-se o homem mais feliz da face da terra. Considerava-se indigno de tamanho tesouro. 

A filha era o centro das atenções do pai. Desde cedo, lhe eram reservados os melhores presentes, em detrimento dos demais irmãos que, enciumados, a evitavam nas brincadeiras e nas escolas. 

O pai nunca escondeu que a filha era a sua preferida. 

Ela ia crescendo e todos o cumprimentavam pela filha tão bonita que possuía, dotada de uma grande inteligência. Sempre tirava as melhores notas de sua classe. Educada, era objeto de admiração de professores e vizinhos.

Quando completou quinze anos, o pai lhe preparou a maior festa que a cidade já vira.

Não mediu esforços, gastou o que tinha e o que não tinha.

No dia da grande festa, ela estava linda, vestindo um belíssimo vestido branco. O pai encantou-se ao vê-la.

Então, ela apareceu com o namorado, da mesma idade. Desejava apresentá-lo ao pai.

Ao vê-lo, o pai sentiu um estranho sentimento, próximo do ciúme.

- Namorado!? – pensou consigo. Nunca disse coisa alguma!

Se sentiu enganado, uma certa tristeza tomou o seu coração.

Quando viu os dois se beijando, quase foi lá para dar uns socos naquele rapaz. Mas se conteve.

Depois de alguns momentos, a filha veio ao seu encontro e beijou-lhe o rosto.

Agradeceu pela festa e por tudo o que ele fizera por ela.

Lágrimas escorreram na face daquele pai. Ela jamais o esqueceria. Tinha certeza, sentia isso em seu íntimo.

Pois se mantermos preso aquilo que mais amamos, ele perde a vida, dia-a-dia, como uma rosa sufocada numa redoma de vidro.

 

2002

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