segunda-feira, 24 de novembro de 2025

O SACRIFÍCIO

O marido havia perdido o emprego. Todas as tentativas de arrumar outra colocação se revelaram infrutíferas. Cansado, exausto, se entregou ao desespero.

O casal começou a passar necessidades.

O homem, jogado no sofá, olhava para a sua mulher. Tão jovem e tão bonita!

Aqueles olhos, outrora reluzentes de vida, estavam agora vazios e opacos.

Ao passar dos dias, a situação se deteriorava.

A mulher, um dia, saiu à tarde, com uma amiga. Só retornaram de madrugada.

Assim que chegou em casa, o marido indagou-lhe onde havia estado. Mas ela desconversou e foram dormir.

No outro, quando abriu a geladeira, viu que a mesma estava cheia, repleta de iguarias.

Sua esposa havia ido ao supermercado e comprado os víveres que estavam faltando à mesa.

Uma dúvida cruel surgiu na cabeça daquele sujeito: como sua mulher conseguiu dinheiro?

Passou o dia todo refletindo sobre o assunto, imerso em teorias e hipóteses. Sentia nascer no peito uma desconfiança que logo medrou para uma terrível certeza. Mas tal conclusão lhe encheu do mais puro horror e ele não quis mais pensar. O que as pessoas pensariam dele, se isto fosse verdade. Resolveu permanecer na ilusão.

Contudo, a dúvida lhe assaltava a alma. Ele, então, tomado pelo desejo ardente de desvendar o mistério, seguiu sua esposa.

E descobriu, atônito, que suas dúvidas tinham fundamento: a mulher vendia o seu corpo, tão belo e tão formoso para quem pagasse mais.

Tomado pelo desespero, viu seu mundo desabar naquele instante.

A esposa, ao descobrir que ele já tinha conhecimento, tentou-lhe explicar que fazia aquilo por que o amava muito, por que queria que ficassem juntos, para garantir o pão de cada dia. Era um tremendo sacrifício – ela sabia – mas jurou que ainda o amava de todo coração. O marido nada disse.

No dia seguinte, bem cedo, enquanto a mulher dormia, arrumou suas coisas e a beijou pela última vez.

Depois, saiu sem saber ao certo para onde iria.


MMII

domingo, 16 de novembro de 2025

OBSESSÃO

Não a deixava sair de casa. Exercia sobre ela o mais completo controle. Se acaso, precisasse de alguma coisa, ele mesmo providencia, prontamente. Não podia deixá-la ir ao mercado, ao banco, à farmácia ou, até mesmo, à igreja. Outro homem poderia tomá-la dele e tal pensamento lhe enchia de pavor.

Apesar dos protestos de amigos e familiares, não mudava o seu comportamento.

Também não desejava ter filhos: não queria dividir o amor dela com mais ninguém; a queria exclusivamente para si.

Trancou-a numa verdadeira gaiola de ouro. De ouro, mas ainda uma gaiola. A mulher definhava, sofria lentamente.

Sua pele era muito alva, vez que, quase não tomava os raios solares. O ar puro e fresco lhe causava certa náusea. Não conhecia os vizinhos.

Contudo, num certo dia, conseguiu escapar da sua prisão doirada.

Correu, sem destino, pelas ruas da cidade. Anelava, ardentemente, conhecer o mundo, as coisas que havia nele.

Parou numa praça. Sentou-se num banco.

Ouvia, maravilhada, o canto dos pássaros, o estardalhaço das pessoas que iam e viam, o barulho das crianças brincando.

Uma brisa atingiu seu rosto. Sentiu-se alegre. Sentiu-se viva.

Mas, o marido descobriu sua fuga. E, em pouco tempo, a localizou.

A levou, novamente, para casa. Redobrou sua vigilância.

Ela ia ficando cada vez mais fraca e combalida. Olhava para suas joias caríssimas, seus vestidos lindíssimos. Nada valiam para ela. Como desejava trocar tudo por apenas um momento de liberdade!

Decidiu que daria um fim àquele sofrimento.

Numa manhã, o marido abriu a porta e a encontrou estendida no chão, inerte. Estava morta. Havia tomado um veneno letal. Não suportou mais viver em cativeiro, aprisionada, sendo objeto da obsessão doentia daquele homem.


2002


domingo, 9 de novembro de 2025

O PRESENTE

Era tomada pelo mais profundo vazio, desde que o marido morreu, vítima de um atropelamento. Não queria mais sair de casa. Passava horas intermináveis na cama, revirando os pertences do falecido. Apesar de ser uma pessoa religiosa, começava a questionar se Deus estava sendo justo com ela.

O tempo ia passando. As amigas tentavam fazê-la sair daquele mundo tétrico e começar uma nova vida. A família tentava fazê-la voltar a razão. Mas tudo redundava em fracasso. Ela cada vez mais se fechava, retraía em seu mundo de recordações e lembranças.

Era como uma árvore morta, sem frutos, ressequida pelo tempo.

Pensava em seu marido, tão gentil, honesto e bondoso, seus planos de terem filhos, de construírem uma casa no campo.

Tudo tão distante e tão perdido.

Certa noite, ouviu um barulho na porta. Assustada, foi ver o que era.

Descobriu uma cesta. Abriu-a e descobriu, admirada, que havia um bebê dentro.

Segurou a criança e sentiu o coração pulsar mais forte. Sentia algo novo e brilhante dentro de si.

Olhou para a folhinha e descobriu que era noite de Natal.

Depois disso, mudou completamente de vida: tornou-se alegre e feliz. Adotou aquela criança, dando-lhe todo amor, carinho e atenção.

Foi, sem dúvida, o melhor presente que poderia ter ganhado, pois fez com que mudasse de vida, encontrando uma nova direção para a mesma e atestando, mais uma vez, que para Deus nada está perdido.


MMII

domingo, 2 de novembro de 2025

A FILHA

Esperou ansiosamente o nascimento da filha. Quando ela nasceu, sentiu-se o homem mais feliz da face da terra. Considerava-se indigno de tamanho tesouro. 

A filha era o centro das atenções do pai. Desde cedo, lhe eram reservados os melhores presentes, em detrimento dos demais irmãos que, enciumados, a evitavam nas brincadeiras e nas escolas. 

O pai nunca escondeu que a filha era a sua preferida. 

Ela ia crescendo e todos o cumprimentavam pela filha tão bonita que possuía, dotada de uma grande inteligência. Sempre tirava as melhores notas de sua classe. Educada, era objeto de admiração de professores e vizinhos.

Quando completou quinze anos, o pai lhe preparou a maior festa que a cidade já vira.

Não mediu esforços, gastou o que tinha e o que não tinha.

No dia da grande festa, ela estava linda, vestindo um belíssimo vestido branco. O pai encantou-se ao vê-la.

Então, ela apareceu com o namorado, da mesma idade. Desejava apresentá-lo ao pai.

Ao vê-lo, o pai sentiu um estranho sentimento, próximo do ciúme.

- Namorado!? – pensou consigo. Nunca disse coisa alguma!

Se sentiu enganado, uma certa tristeza tomou o seu coração.

Quando viu os dois se beijando, quase foi lá para dar uns socos naquele rapaz. Mas se conteve.

Depois de alguns momentos, a filha veio ao seu encontro e beijou-lhe o rosto.

Agradeceu pela festa e por tudo o que ele fizera por ela.

Lágrimas escorreram na face daquele pai. Ela jamais o esqueceria. Tinha certeza, sentia isso em seu íntimo.

Pois se mantermos preso aquilo que mais amamos, ele perde a vida, dia-a-dia, como uma rosa sufocada numa redoma de vidro.

 

2002

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos ...