segunda-feira, 20 de outubro de 2025

A FALTA

Havia chegado ao posto mais alto da empresa. Galgara todos os níveis hierárquicos para atingir seu maior objetivo: a presidência da corporação. Era admirada pelas colegas de trabalho, desde as faxineiras até as chefes de departamento. Viam nela uma heroína, um exemplo a ser seguido por todas as mulheres.

Era realizada profissionalmente, dinâmica e independente. Mas, no fundo, não era feliz. Sentia a necessidade desesperada de alguém para compartilhar as conquistas, os sucessos alcançados. Inexistia aquela companhia masculina para que pudesse contar também nos momentos mais dificultosos.

Sempre, desde a juventude, traçou ela mesma, seus planos e seus objetivos. Sempre tomara as rédeas de seu destino. Seus namorados se sentiam preteridos e por causa de sua constante preocupação com o trabalho, acabavam indo embora.

Ela estava só: e quanto mais progredia em sua carreira, cada vez menos homens se aproximavam dela. Seria medo? Seria raiva? De fato, não sabia.

Sentia que a solidão lhe abraçava mais e mais. Porém, ainda continua a sua busca, tentando encontrar este homem, o companheiro que a faria realmente feliz. Pois, apesar de tudo, de ser a mulher mais importante em sua área empresarial e ser uma referência feminina brasileira, ela ainda sente falta do mais importante, o qual nenhum ser humano pode viver sem ou dispensar: o amor.


MMII

 

domingo, 19 de outubro de 2025

SEGUNDA-FEIRA

Como um dever sagrado, toda segunda-feira, ia à biblioteca para ler o resumo das novelas que vinham no jornal de domingo. O seu hábito era tão antigo que os funcionários da biblioteca já a conheciam de longe e já separavam o caderno de televisão especialmente para ela.

Sentava-se e punha-se a ler com atenção as letras miúdas do jornal: as sinopses dos capítulos da semana. Quem iria morrer? Será que o galã vai se casar com a mocinha no capítulo de quinta? E o vilão? Vai ser feita a justiça?

Demonstrava suas emoções diante dos desdobramentos da trama novelesca: falava sozinha, batia na mesa, presa de raiva ou alegria.

Passava cerca de uma hora em seu mundo particular, onde tudo era perfeito e tudo acabava bem. Sentia-se feliz e ansiava pela próxima segunda-feira para poder, novamente, entrar em seu mundo encantado.

Tinha trinta e cinco anos e era solteira. Morava na periferia em um quarto alugado.

As novelas eram seu único divertimento. Trabalhava como faxineira e, quando chegava em casa, assistia devotamente às novelas. Era a sua paixão. Seu único refúgio para esquecer um pouco da vida sofrida e da solidão.

Numa segunda-feira, ao procurar pelo caderno de televisão, o bibliotecário lhe informou que o suplemento estava sendo lido por uma outra pessoa.

- Mas como!? – pensou ela. Era sempre a primeira a lê-lo!

Indignada foi saber quem era a pessoa.

Descobriu que era um homem de meia idade que também apreciava muito as novelas que passavam na televisão.

Ela sentiu-se desarmada. Toda aquela fúria havia passado.

Ele pediu que ela se sentasse. Leriam, os dois, o jornal, sugeriu ele. Ela aceitou.

Depois, começaram a conversar. Ele contou que mudou-se a pouco tempo para o bairro e que não perdia um capítulo de sua novela preferida.

Da conversa, começou a nascer uma afinidade e, em algum tempo, transformou-se em amor; namoraram e casaram-se.

Uma história inusitada e com um final feliz. Como em uma novela.


2002



quinta-feira, 16 de outubro de 2025

O ÚLTIMO ANIVERSÁRIO

Casaram-se na primavera. As flores enfeitavam a igreja no dia da cerimônia. Depois do casamento, houve uma festa na mansão do marido. Ele, um rico e solitário, havia se casado com uma mulher trinta anos mais jovem. A família dele foi totalmente contra.

Muitos comentavam que aquela jovem só estava interessada nos bens dele, interessada em seu dinheiro. Outros, mais conservadores, viam naquela união um tremendo absurdo, pois ele tinha idade para ser pai dela. Mas apesar de tudo e de todos, eles se casaram e tiveram uma luxuosa lua de mel.

Ele um homem já vivido e embrutecido pelas agruras da vida, sentia nela uma força nova que o parecia invadir, tornando o seu espírito mais jovial e alegre.

A juventude da esposa, suas brincadeiras, seu jeito tão gracioso e, até certo ponto, inocente de ser, o enfeitiçavam como se bebesse uma poção mágica.

A esposa, por sua vez, sentia naquele homem maduro, a segurança e a confiança que tanto lhe faltavam.

Passaram-se as estações.

Ele tentava acompanhar a vitalidade da esposa, mas sentia o peso dos anos. Sentia que não suportaria por muito tempo.

A jovem mulher começou a lhe parecer distante, perdida qual uma miragem no deserto.

Mas ela nunca o abandonou; sempre esteve presente ao seu lado, cuidando de seus medicamentos, velando seu sono.

Então, uma doença o fez ficar permanentemente na cama. Não podia mais passear com a esposa, de braços dados, pelos jardins e bosques da mansão. Sentia que o fim se aproximava.

Um dia chamou a esposa. Era primavera. Ela veio o mais rápido que pôde. Pediu que segurasse sua mão e lhe dissesse se fora realmente feliz com ele. Ela disse que sim. E, segurando a mão da esposa, morreu.

Exatamente naquele mesmo dia faziam aniversário de casamento.


MMI

 

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

FRONTEIRA TÊNUE

Trabalhava duro. Todos os dias da semana, sem parar. Fazia hora extra. Tudo para satisfazer sua mulher que cada vez exigia mais.

Ele a amava muito. Amava de uma maneira incomensurável. Seu amor por aquela mulher superava todas as possibilidades imagináveis. Sempre estava disposto a lhe dar qualquer coisa, fosse o que fosse, custasse o que custasse. Por isso trabalhava tanto.

Porém, ela, aos poucos, começou a se desinteressar por ele. Sentia-se entediada. Não possuía a mesma vontade de permanecer ao lado dele, quer fosse em casa ou nos acontecimentos sociais.

Sentia o desejo de sair daquela rotina, de conhecer outras pessoas, outros lugares. Ele não a deixava sair de casa sozinha, com medo de perdê-la.

A situação do casal se deteriorava. Ela ameaçava, todo dia, em ir embora.

Ele se jogava aos seus pés, lhe oferecia as joias mais caras. Aquele amor já não era mais o mesmo para ele. Tornara-se uma doença, cuja única cura era a presença dela. Passou a vigiá-la dia e noite, contratou até um detetive particular. Não queria perdê-la. Não podia perdê-la.

Numa tarde, ela conseguiu escapar de sua vigilância. Quando ele chegou e percebeu que ela não estava mais lá, foi tomado pelo ódio e jurou se vingar. 

Arrumou uma arma e a perseguiu pela cidade. Encontrou-a na rodoviária, pronta para embarcar. Aproximou-se e disparou vários tiros, diante de várias pessoas.

Foi preso e condenado.

Sem dúvida, o amor é o sentimento mais nobre que o ser humano pode possuir. Quando se torna doentio e possessivo, causa sofrimento, dor, morte. Transmuta-se em ódio.

Uma fronteira frágil, tênue, separa estes dois sentimentos tão antagônicos.

2001

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos ...