sábado, 31 de janeiro de 2026

PLANÍCIE

Sim, finalmente, depois de anos, ela conseguia se casar com aquele homem que tanto amava; uma década de um namoro, de altos e baixos, um noivado de idas e vindas, mas no final ela poderia chamar o seu amado de marido. Um momento que tanto esperava! 

Tudo estava bem: a mãe do amado gostava muito dela, ela tinha um emprego muito bom, estava no melhor momento de sua carreira, tinha saúde e uma beleza de causar inveja. Poderia dizer, sem susto, que estava no seu auge, no seu apogeu. 

O marido, um homem um tanto conservador, tinha um emprego de menor destaque que ela, mas fazia questão de atender todos os seus desejos de sua amada: uma roupa bonita, ir a um restaurante caro, mobiliar a casa como ela queria. Um verdadeiro conto de fadas começava para ela que não se cabia de satisfação e alegria. 

O tempo passou: os meses, logo viraram anos. O amado agora parecia mais preocupado com o trabalho do que com ela. Seu zelo para com suas atribuições lhe despertava um misto de admiração e raiva. Passou a se sentir em segundo plano na vida do marido. 

No seu emprego, ela via as amigas viajando com seus namorados e maridos para o exterior ou um destino mais modesto e sentia uma falta de interesse de seu companheiro. Ela que sempre gostava tanto de conhecer outros lugares e tinha feito planos na juventude, se sentia com uma pontinha de frustração, mas nada comentava com ele. 

Depois do trabalho, ia conversar com sua mãe; uma senhora de cabelos embranquecidos e calejada pelas agruras que sofrera durante sua vida. E a conversa era a mesma: isto é coisa do casamento, que se acostumasse. As palavras maternas, longe de lhe trazerem conforto, segurança e serenidade, acabavam, com o passar do tempo, a lhe despertar um agudo desespero. 

Em algum tempo, o marido começou a chegar tarde em casa. Se eximia de desculpas e só queria tomar o seu banho, comer alguma coisa, assistir TV e dormir. No início, ela até aceitou, mas logo exigiu satisfação. 

A resposta foi truculenta: em um dia, depois de uma discussão mais exaltada, o homem lhe deu um soco no rosto. Depois disso, passaram a dormir em quartos separados, onde ela sempre molhava o seu travesseiro com suas lágrimas. 

Ao tentar desabafar com sua mãe, ouviu o que menos esperava: a culpa era dela que não entendia as necessidades dele. Reiterava as palavras já ditas: se acostumasse e deveria agradecer, todos os dias, por ter um marido tão zeloso. 

Para completar, sua sogra passou a lhe tratar com indiferença; no fundo nunca consentiu com aquele casamento, pois achava que seu filho merecia outra mulher. Agora, como que justificada por alguma causa desconhecida, passou a exigir que lhe ajudasse de sua casa. 

Assim, ela passou a cumprir uma rotina tríplice: trabalhar em seu emprego, limpar sua casa e a casa da mãe do amado (sogra). Uma extenuante jornada. 

Num belo dia, resolveu que daria termo àquilo: um divórcio, uma nova vida, uma nova chance de ser feliz. Todo o que ela queria ardentemente. 

Nisto, algo interessante aconteceu: todos ao seu redor se reuniram para demovê-la daquela ideia: afirmavam que formavam um belo casal, que seria loucura deixar aquela vida tão boa. 

E como se uma tempestade cessasse, ela se viu forçada a aceitar; o marido prometeu que a trataria bem, nunca mais a machucaria e passaram a ir a uma reunião de casais numa denominação evangélica; a sogra passou a contar com os serviços de uma empregada e a dizer para todos que sua nora era preguiçosa (seu filho se casara mal, pois nem netos ela lhe deu) e sua mãe agradeceu a Deus pelo casamento da filha ter continuado. 

E assim, como olhando para uma imensa planície que se descortinava à sua frente, ela pareceu se sentir conformada. Sua vida não teria a coloração favorita, mas teria alguma cor; não teria os seus sonhos realizados, mas pelo menos dormiria bem à noite; o marido não seria o galã romântico da novela, mas também não seria o vilão de bigodes finos. 

Consagrava o resto de seus dias a uma doirada e tola mediocridade. 

 

MMXX

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