sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O JURAMENTO

Aquele escritor passava por um bloqueio criativo, por meses a fio. Nada conseguia escrever e tal situação o deixava desesperado. As contas se acumulavam e ele vivia fugindo de seus credores. Já havia pedido um adiantamento para o dono da editora que sempre publicava seus livros, mas debalde. Pensava até em suicídio. 

Passou a frequentar um bar que ficava perto de seu apartamento; local pequeno, barulhento e escuro, onde os fracassados como ele iam para tentar afogar suas mágoas. Passava as madrugadas ali, desmaiado na mesa; o dono tinha que pô-lo para fora. Mas como se tornou um freguês contumaz, acabou virando amigo do dono e até passaram a sair juntos, no momento que o estabelecimento fechava. 

Numa madrugada, os dois já estavam de saída; o dono já abaixa a porta e girava a chave da tranca, quando viram um vulto enorme se aproximar. O escritor achando se tratar de um delírio provocado pela bebida consumida, não deu atenção e começou a seguir seu caminho pela calçada. 

Nisso, algo rolou em direção aos seus pés que o fez dar um salto: a cabeça do dono do bar! Virando-se para a direção oposta, quase desmaiou: um ser enorme, alado, quase três metros de altura, com aspecto bem parecido com as gárgulas que existem nas catedrais antigas. A criatura, com capacidade de falar, lhe disse, com voz meio animalesca: 

- Sua vez! 

O homem tomado pelo mais profundo horror, conseguiu balbuciar a seguinte frase: 

- Por favor! Não me mate! 

Nisso o estranho ser se deteve; seus olhos negros passaram a ter um certo brilho, quase humano. E então disse: 

- Pouparei sua vida, se fizer um pacto comigo. Jure que jamais contará a pessoa alguma que me viu! Jure! 

- Juro! – O homem disse e já quase desfalecido se ajoelhou. 

Olhando para cima, viu que o mostro havia sumido; somente a cabeça e o corpo decapitado do proprietário do bar lhe faziam companhia. Tratou de sair dali já. 

Correndo pelas ruas vazias da cidade que ainda dormia, sem querer, esbarrou numa mulher que vinha em sentido contrário. Após o choque, houve o encontro de olhares e homem ficou encantado com ela: morena, rosto lindo e corpo perfeito. Apaixonou-se por ela no mesmo instante. 

A mulher se desculpou e já ia seguindo seu caminho, mas ele insistiu em acompanhá-la. Ela, meio sem jeito, concordou. 

Acabaram indo para o apartamento dele e logo depois já estavam morando juntos. Ela lhe disse o seu nome e ele descobriu ser um nome muito antigo, usado pelas mulheres da Europa Pré-Cristã. 

A partir do relacionamento com aquela mulher, a vida dele modificou-se a olhos vistos: produzia um livro atrás do outro, sempre conseguindo encabeçar a lista dos mais vendidos, dos bestsellers. Ficou famoso e rico. 

Passaram-se dez anos. 

Agora eles moravam numa luxuosa mansão, num condomínio fechado. A união gerara um casal de filhos, orgulho daquele homem. Tudo ia bem, mas ele se sentia em dívida com a mulher que lhe trouxera tantas benesses. O que seria dele sem ela? Já estaria morto, arrebatado pelo fracasso. Precisava contar a ela o que acontecera na noite em que se conheceram. Devia isso a ela. 

Numa noite, ela chegou com os filhos, depois de fazer compras. Os filhos, após beijaram o pai, foram para os seus quartos e deixaram o casal a sós. 

Nisso, o homem trouxe a esposa perto de si, e lhe disse com voz embargada: 

- Desde que te conheci, minha vida melhorou muito. Você me salvou. Se não fosse você, estaria morto há anos. Você me deu tudo. Então tenho que ser honesto com você: preciso te contar o que houve na noite em que nos conhecemos. 

E assim, detalhou o que havia acontecido: a morte do dono do bar e o aparecimento da criatura horrenda. 

A mulher ficou pálida. Seus olhos perderam o brilho e ela ficou sem ação; somente deu tempo de dizer com sua voz suave que já se alterava para um tom mais grave: 

- Por que você quebrou o juramento!? 

Então uma terrível transformação aconteceu: a mulher, tão bela de formas, tornou-se a criatura que ele havia visto tempos atrás; e olhando para trás, viu, horrorizado, que seus filhos também tomaram a mesma forma, só que em tamanho menor. 

O homem ficou aterrorizado; tentou falar algumas palavras: 

- Por favor, volte ao que era antes! 

Mas a criatura, agora em sua forma definitiva respondeu: 

- Não há como! Uma vez quebrado, o juramento não pode ser refeito! 

Em seguida, suas garras afiadas despedaçaram o peito do homem que caiu ao chão, se debatendo numa morte sofrida e lenta. 

O monstro então apanhou suas crias e saiu voando, destruindo o telhado da bela mansão. 

As investigações policiais nada apuraram e o caso acabou sendo arquivado, meses depois. 

Todavia o que ninguém, até hoje, conseguiu explicar foi o aparecimento de uma estranha estátua na Igreja Matriz da cidade, em sua torre mais alta: uma criatura com aspecto terrível, trazendo, perto de si, duas criaturas menores, qual filhos. E a expressão do rosto do monumento é o que mais chama a atenção do desavisado: um semblante sereno, mas onde reside a dor e a tristeza.


MMXVII


Nenhum comentário:

Postar um comentário

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos ...