A mulher acorda para mais um dia; acorda sozinha, pois seu marido já saiu para trabalhar faz algum tempo. Na cama, bem grande e espaçosa, ela se espreguiça e se levanta; devem ser oito horas da manhã.
Calça seus chinelos e veste seu robe. O sol já bate na janela do quarto.
Pretende ir ao
banheiro, lavar seu rosto, mas no caminho algo a chama a atenção. Um barulho,
uma algazarra. Dirige-se à janela e a abre.
Então descobre a causa do ruído: crianças indo para a escola. Como sempre barulhentas, brincando umas com as outras, algo tão próprio da idade.
Ela fica um tempo a contemplar aquela cena, mas logo volta para dentro; como que desperta de um sonho, volta ao mundo real e fecha a janela.
Chega ao banheiro, muito bem adornado com mármore que fica junto ao seu quarto.
Admira-se ao espelho, grande para que todos os detalhes não sejam perdidos.
O escarcéu das crianças ainda está em sua mente. Crianças? Filhos. Poderia tê-los tido, mas tinha medo de perder as formas de seu corpo, engordar. Assim, tomara todos os cuidados para que seu ventre não gerasse fruto e ela permanecesse sempre com as formas joviais.
Mas, agora já chegando a maturidade, será que fora uma boa escolha? Não deveria ter dado ao seu marido, um herdeiro, alguém para alegrar seus dias? Uma filha que pudesse ensinar os truques de maquiagem, as dietas da moda, comprar as roupas nas lojas mais caras...
Divagava nestes pensamentos, quando uma voz interior lhe disse: “Louca! Filhos dão trabalho, você iria querer passar noites em claro, preocupada com eles que talvez nem se importassem com você!
Sim, a voz que saía de seu âmago estava correta. Fizera a melhor escolha. Filhos só trariam problemas e ela ficaria gorda.
Então ficou se admirando no espelho; ficou nua e pôs a admirar a beleza de suas formas; já tinha certa idade, não era mais uma moça, mas quantas queriam ter o seu corpo, seu cabelo, seu rosto, sua vitalidade! Ah! Que morram de inveja!
Veste seu robe, calça seus chinelos e desce para a cozinha.
Sua casa era uma mansão, destas que se veem nos filmes e novelas, com uma linda escadaria, com uma ampla sala de estar e tudo o que se possa imaginar na vida dos ricos e famosos.
Já devem ser quase oito e quinze. Chega à cozinha, ampla com panelas que parecem espelhos.
Onde estará a empregada? Então a voz que lhe falara no quarto diz: “Malditos empregados! Trata-os com respeito e dignidade e nem chegam na hora certa! Deve despedi-la como fez com outras!
Sim! Isso mesmo. A empregada tem inveja dela, pois jamais atingirá a sua posição.
Mas, ela será
complacente; na próxima vez, o atraso resultará em demissão.
Procura algo para comer na geladeira, tão grande e repleta de iguarias.
Nisto, chega seu sobrinho; um adolescente de quinze anos, vestido com roupas largas e um boné, indumentária comum para os de sua geração.
A mulher o ama de todo coração; filho de sua única irmã tem tanta confiança nele que dá a chave de sua casa; ainda que seu marido ache tal ato um tanto exagerado.
Ela lhe dá um abraço e o jovem retribui de maneira distante. Mal diz bom dia e já lhe pede certa quantia em dinheiro.
A mulher nem pestaneja; vai ao quarto, pega a sua bolsa, pega o cheque e o assina.
O jovem dá um sorriso, um beijo meio apressado e some pela porta.
Mal trocaram meia dúzia de palavras.
A voz interior continua: “Jovens são assim mesmo! E também a louca da minha irmã não soube criá-lo. Ele não tem culpa.
A mulher então come uma maçã e fica admirando sua cozinha; cada mordida lhe dá satisfação tanto no paladar como na visão.
Vai para a sala, onde estão tapetes dos mais variados países, moveis de todos os lugares. Sim, tudo era dela.
Seu marido era um homem de sorte. Ela dava festas para os amigos dele, era a esposa ideal. Sempre linda, atenta aos detalhes, ideal para um homem de negócios tão atarefado.
Mas, onde ele estaria? Estaria na sua empresa, sempre buscando novas formas de ganhar dinheiro, expandir os negócios. Sim, eram ambiciosos.
Ele deveria estar muito cansado, pois não a procurava nos últimos tempos; dormia como uma pedra; ferrava no sono bem cedo e acordava ainda de madrugada.
Teria uma amante mais jovem? Poderia ser.
Mas a voz
interior continuou: Que bobagem! Ele te ama. E se tentasse te trair,
perderia metade dos bens que conseguiu. E você pode arrumar um amante!
Que vida perfeita ela tinha! Todos a admiravam. Morriam de inveja de sua posição.
Já eram quase nove horas e ela se pôs a admirar tudo o que tinha, tudo o que tinha conquistado.
O quadro do casal, pintura a óleo, na sala; as reportagens em uma importante revista de famosos de circulação nacional... Tudo era seu, suas conquistas.
Mas, então sentiu um aperto no coração. Como se fosse um leve sopro de vento que anunciava uma borrasca vindoura.
Seria feliz? Sim. Tinha tudo, era invejada, nada a podia abater... Na verdade, podia.
Não era feliz. Todas as suas coisas nada valiam; muitos a odiavam e todos aqueles bens nada representavam.
Neste instante, o belíssimo relógio banhado a ouro, bateu nove vezes. Neste momento, a mulher descobriu que nada tinha; a voz interior havia se emudecido, numa caluda insuportável.
Então ela soube o enorme tamanho de sua nulidade, o enorme peso de sua solidão.
2016
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