terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A MÉDICA

O pai criava os filhos com rigidez. Exercia um tirânico controle, ainda mais sobre as filhas. 

Elas deveriam ficar em casa. No máximo, irem à igreja. Bailes, quermesses, nem pensar. 

Uma de suas filhas era muito inteligente e deseja estudar. Isto para aquele homem era um completo absurdo. 

Porém, burlando a vigilância paterna, a menina começou a frequentar uma escola noturna. Quando o pai pensava que ela estava dormindo, ela estava aprendendo e se encantando com o mundo do saber. Tinha tomado uma decisão: queria ser médica. 

Ao saber que sua filha estudava, o pai decidiu que lhe daria uma surra. Com medo, ela fugiu. 

Foi para a capital, praticamente com a roupa do corpo. E lá conheceu o mundo: pessoas boas e ruins passaram em seu caminho. 

Arrumou emprego de faxineira, empregada doméstica, caixa em supermercado. 

Trabalhava de manhã e a tarde. Estudava a noite. Nunca abandonou os estudos, por mais dificultosa que fosse a sua situação. 

Com a ajuda de uma ex-patroa, conseguiu entrar na faculdade de Medicina. Em pouco tempo, já era a primeira da turma, conseguindo uma bolsa de estudos, o que lhe permitiu viver com algum conforto. 

Formou-se. Fez residência em muitos hospitais. 

Um dia, chegou uma ambulância vinda do interior. Era um caso grave e ela foi chamada para atender um senhor que já estava entre a vida e a morte. 

Ela, com todo o seu conhecimento e habilidade, o fez voltar à vida. 

Quando o homem abriu os olhos, não podia acreditar: era a sua filha! 

Abraçou-a e pediu perdão por tudo que a tinha feito passar. 

Ela o convidou para morar com ela, no apartamento que há pouco comprara. Mas, ele recusou. 

Voltou para o interior. E a filha sempre o visitava, cuidando de sua saúde. 

E assim, ele viveu por mais alguns anos, sossegado e sereno, como se tivesse tirado um enorme fardo de suas costas. E morreu, adormecido, tranquilo. Em paz.


MMIII

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos ...