terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O QUADRO

Aquele famoso pintor acabara de se casar com uma mulher belíssima. 

Extasiado com a beleza de sua esposa, decidiu que a pintaria num retrato. 

Partiram para uma casa no campo, afastada de qualquer interferência de terceiros. 

Lá chegando, o artista preparou a tela, arrumou as tintas. Pediu para que sua mulher se sentasse num banco e começou a pintá-la. 

Pintava com firmeza e perfeição, dignas do seu talento, dignas desta nobre arte. 

A esposa permanecia imóvel, qual uma estátua, não esboçando qualquer movimento, por menor que fosse. 

Os dias se passaram e o pintor se esquecera de comer ou dormir. A conclusão daquela obra lhe tirava qualquer apetite ou sono. 

Passava horas a fio pintando; se julgava que a pintura não estava perfeita, jogava-a fora e começava tudo novamente. Fazia esboços no papel freneticamente, tomado por uma paixão avassaladora. 

Os pais da mulher queriam visitá-la, mas ele impedia qualquer pessoa de aproximasse da sua modelo, alegando que atrapalharia a sua obra-prima. 

Passaram-se meses e o quadro ainda não estava concluído. Ele nunca estava satisfeito: sempre havia algum detalhe, alguma nuance que deveria ser acrescido ou retirado. 

Permitia à esposa e a si mesmo poucas horas de sono e uma alimentação incipiente. 

A saúde da mulher começava a se deteriorar, mas por muito amar o seu esposo, nada lhe revelava. 

Numa tarde de primavera, o artista, finalmente, deu os traços definitivos à sua obra. 

Tomado por uma incrível euforia, exclamou a plenos pulmões: 

- Terminei! Veja querida! Venha ver! Como ficou perfeita! 

Mas, esposa não compartilha a alegria do marido. Fica inerte, sem pronunciar palavra. 

Preocupado, o homem caminha em sua direção. 

Parece que está adormecida. A toca, levemente, e se enche de horror: está gélida. Está morta.

 

MMIII


Nenhum comentário:

Postar um comentário

O CARRO NOVO

Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou o meu coração e a minha mente. Claro que não devemos ...