quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A CAIXINHA DE MÚSICA

A mulher acorda. Dorme só. O marido está viajando, pois é vendedor. Ganha muito pouco, mal dá para as despesas do mês. 

Acorda o filho para ir à escola. Prepara o seu café e ele toma, rápido. Beija a mãe e sai correndo em direção ao colégio. 

Começa a arrumar a casa, sua rotina interminável: limpa, varre, lava. Quando se dá conta, é hora de preparar o almoço, pois seu filho está para chegar. Antes, se olha no espelho. 

Ainda é bonita, apesar dos afazeres domésticos e do relativo desleixo que tem com sua aparência. 

Penteia os cabelos. Abre a gaveta da carcomida penteadeira e retira uma caixinha de música, destas que não se fabricam mais. 

Abre a sua tampa e uma melodia enche o quarto. A música a faz voltar para um tempo que não volta, seu tempo de juventude. 

Namorou um rapaz algum tempo. Fora ele quem a presenteara com aquela caixinha de música, presente de um ano de namoro. 

Porém, acabaram por se separar. Ela se casou jovem. Ele foi para a capital, onde trabalhando duro, conseguiu vencer na vida. 

A mulher pensava alto: será que ele ainda se lembrava dela? 

A campainha tocou. Ela foi atender. 

Ao abrir a porta, deu de cara com seu antigo namorado. 

Com a voz embargada, pede que entre. 

O homem senta-se no sofá da humilde casa. Diz que está visitando seus parentes e revolveu também lhe fazer uma visita. 

Começam a conversar sobre a vida e ela descobre que ele tem um bom emprego na capital, se casou e é pai de dois filhos. 

De repente, se instala um silêncio no ar. 

Ela diz que vai à cozinha, mas ele a segue. 

A segura pelo braço e lhe pergunta: 

- Você me esqueceu? Pois eu nunca te esqueci! 

Lá dentro, a caixinha de música, misteriosamente, começa a tocar. 

Falta pouco para um beijo. Nisso, o filho dela chega: 

- Mãe, já cheguei! Já fez o almoço? 

Os dois, como que despertos de um sonho, se afastam. 

O homem sai apressado. Nem sequer se despede dos dois. O menino fica curioso: 

- Quem era este homem, mãe? 

- Ninguém, filho. Ninguém. 

E esconde uma lágrima que rola em seu rosto.


2003


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